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Expresso

A vida de saltos altos

Esta muçulmana calou a extrema-direita com uma selfie

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Jurgen Augusteyns

Ação, reação. É esta uma das fórmulas base da interação humana. E como é que uma jovem mulher de 22 anos pode reagir quando, ao andar nas ruas que a viram crescer, se depara com uma manifestação que apela à sua exclusão e da sua família? Raiva e agressividade poderia ser a resposta de muitos de nós. Eu confesso que quando vejo imagens de manifestações de extrema direita, onde se cospem palavras de ódio e de racismo como panaceia para os males do mundo, me dá vontade de distribuir pares de estalos a torto e a direito. Mas a verdade é que pares de estalos não resolvem nada e foi isso que Zakia Belkhiri percebeu no momento em que optou por tirar uma selfie como resposta. Tão simples quanto isso. Mas a sua atitude está a correr o mundo.

Aconteceu há uns dias em Antuérpia, durante o evento anual da Expo Muçulmana. Cerca de 40 membros e apoiantes do Vlaams Belang, um partido de extrema direita belga, decidiram manifestar-se com cartazes cheios de mensagens como “não ao islão”, “não às mesquitas” ou “não aos véus”. De véu na cabeça, Zakia deu por si a passar por este cenário. Como resposta à hostilidade e vaias que a sua presença provocava, sacou do telemóvel, sorriu e começou a tirar selfies com a manifestação como cenário de fundo.

Apanhados desprevenidos, os protestantes só lhe souberam apontar o dedo e dizer que o islão proíbe os telemóveis. Zakia sorriu novamente, aproximou-se, disse-lhes que se calhar tinham de estudar um bocadinho o islão antes de dizerem disparates e tirou novamente selfies, mesmo lado a lado com as pessoas que estavam ali para criticar a sua existência, e a de todos os muçulmanos naquela cidade.

Tudo isto poderia até ter passado despercebido, mas o fotógrafo Jurgen Augusteyns captou o momento e as suas imagens foram publicadas pela Vice. Rapidamente se tornaram virais, em jeito de símbolo harmonia e tolerância. Na web, são muitos os que dizem que esta mulher é “uma heroína” e que nos tempos conturbados que a Europa vive, “esta forma de protesto é encorajadora”. Mas Zakia deixa claro que o que fez não foi um protesto, “foi apenas uma forma de espalhar um bocadinho de alegria e de paz, de tentar mostrar que as coisas podem ser diferentes. Que não temos de viver apenas uns ao lado dos outros, mas sim uns com os outros.”

Continuo a não perceber como é que manifestações públicas com motes racistas e xenófobos continuam a ser permitidas na Europa. Uma coisa é liberdade de expressão, outra coisa é puro incitamento ao ódio – de onde nada de bom pode sair - e isso deve ser punido por lei. Ainda bem que surgem pessoas como Zakia Belkhiri e Tess Asplund (a mulher que desafiou 300 neo-nazis na Suécia) que, com gestos tão simples e pacíficos, demonstram quão idiota, pacóvio e inaceitável é este comportamento. A memória histórica da Europa é realmente pequena.