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Expresso

Não quero ser mãe. E então?

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Fim de semana, conversa entre mulheres. Uma delas, na casa dos 30 e muitos, não quer ser mãe. E quando o deixou claro à família, teve como resposta um redondo “mas isso não é normal”. Esta frase, que carimba a mulher que não quer ser mãe como um ser anormal é já um cliché dos nossos tempos. Tal como a sentença de que as mulheres que não querem ter filhos “têm problemas”, são “secas” ou “não gostam de crianças”, o que as torna pessoas pouco fiáveis ou, é claro, egoístas. Basicamente, seres estranhos numa sociedade que está formatada para a maternidade como apogeu da vida feminina. Mas o que muita gente se esquece é que querer ou não ser mãe não é mais do que uma decisão pessoal. E ninguém tem nada a ver com isso.

Para falarmos disto temos de ter plena noção de que para atrás está uma longa história de sistema patriarcal, com a mulher reduzida ao papel de mãe e dona de casa. Parece-me óbvio, olhando para os últimos séculos, que quanto mais espartilhado o papel das mulheres estiver na sociedade, menos afetada fica a supremacia masculina, que durante tanto, tanto tempo ditou o caminho do poder. Isso está claramente a mudar. Não que a maternidade seja incompatível com um cargo de poder, parece-me óbvio. Mas a liberdade da mulher para seguir outros caminhos veio ajudar a mudar uma equação que dominou o mundo durante muito tempo.

Contudo, ainda dita a sociedade que o rumo normal da vida de uma pessoa é arranjar um bom parceiro – se até aos 30 não o fizerem, algo está errado, obviamente - , casar, ter um primeiro filho pouco tempo depois, esperar dois ou três anos e ter outro. E pronto, está cumprida a tarefa cultural e social que nos continuam a vender como normalidade. Ou seja, a eterna mensagem do “crescei e multiplicai-vos” ainda vende, como um slogan digno de prémio no que toca a influenciar as massas. E a verdade é que há muita gente por aí a segui-lo só porque tem de ser, senão “o que é que os outros – a família – vão pensar”.

“Não achas egoísta privar-nos do sonho de ter um neto?”.

No caso das mulheres, a pressão para a maternidade chega das mais variadas formas: uma delas é o lembrete constante do “de que é que estás à espera?” ou então do “ou te despachas ou depois não consegues”, como se estivéssemos numa corrida contra o tempo. Ou seja, mesmo que eu não sinta o apelo, mais vale despachar isto para não me arrepender um dia. Também vem em forma de chantagem familiar, com frases como “mas não me vais dar a felicidade de ter um neto?”, ou pior, “não achas egoísta privar-nos do sonho de ter um neto?”. Outra das formas muito comuns de abordar o tema é dizer coisas como “vais morrer sozinha” ou “quem te vai amparar na tua velhice?”. Como se os filhos fossem uma simples garantia para o futuro.

Desculpem-me, mas só vejo egoísmo em abordagens destas. E não é por parte de quem não quer ter um filho, essa é apenas uma decisão pessoal tomada em consciência. O que me parece bem egoísta é chantagear alguém com frases do género, que não são mais do que cobranças que não contemplam sequer a felicidade e a vontade daquela pessoa. E isso é tão feio e umbiguista.

Por mais que nos vendam a justificação biológica - da natureza maternal da mulher e da nossa capacidade de gestação – como dogma, não estamos a fazer mais do que tentar justificar uma crença social com um argumento genético. Sim, nós podemos gerar um criança. Mas não, nós não somos obrigadas a querer fazê-lo só porque é isso que a sociedade nos diz ser o caminho certo. O nosso caminho pode ser simplesmente outro. Nenhuma mulher é menos mulher por não querer ser mãe, não há nada de errado ou de condenável nisso. Tal como não há nada de errado em se querer avançar para a maternidade.

Quando se está numa relação, ainda surgem também os comentários sobre a felicidade em casal, como se só uma gravidez viesse validar de alguma forma o amor entre duas pessoas. Tal como também parece ser a única forma de validar a felicidade plena de uma mulher. Sem isso, algo está nitidamente mal. Ou seja, tudo isto nos encaminha para uma única conclusão: não querer ter filhos é um problema. E enquanto encararmos isto desta forma, nunca será possível alguém se sentir bem na sua opção. Que, mais uma vez, é exclusivamente sua. E ninguém tem nada a ver com isso.