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Expresso

Ver uma mulher a ser assediada e pontapeada tem piada?

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Emoticons literalmente a chorar a rir, frases como “o pontapé é demais”, “a parte final é hilariante” e inúmeros “AHAHAHAHAH”. São estas as reações de milhares (acreditem, milhares) de pessoas ao verem e partilharem no Facebook um vídeo onde se veem duas mulheres a serem assediadas na rua, sendo que no último caso a mulher é agarrada por dois homens e pontapeada no fim.

O vídeo é nitidamente encenado, bem ao género dos “apanhados”. Na primeira parte um homem passa por uma mulher de bicicleta e agarra-a, forçando-a repetidamente a ser beijada na boca enquanto ela tenta soltar-se. Na segunda parte, uma mulher fala ao telemóvel na rua quando é abordada por um jovem. Um segundo homem chega e agarra-a por trás, imobilizando-lhe os braços, enquanto o primeiro a beija na boca à força. Depois de soltarem e fugirem, um deles volta atrás e dá-lhe um pontapé que a deita ao chão. Hilariante? Eu diria antes doente.

Mas, pelos vistos, para milhares de pessoas – o vídeo foi partilhado por quase 5 mil pessoas – isto é simplesmente divertido. Ou seja, a encenação de um episódio de violência e assédio contra duas mulheres é vista com a leveza de uma brincadeira, de algo que é simplesmente hilariante e passível de ser banalizado. Entre os mais de dois mil comentários deixados nesta página – onde nunca se percebe quem são os autores do vídeo – são poucos os que se indignam. Rir e aplaudir algo que é profundamente grave, em vez de refletir sobre as consequências da mensagem que está a ser passada, é só mais fácil. Viva a preguiça. E também a inconsciência.

Humor ou banalização da violência?

Banalizar a violência e o assédio sexual é algo que nos deveria preocupar a todos, até porque a maioria de nós está rodeada de meninas e mulheres que em algum momento das suas vidas passaram – ou vão passar - por situações dessas. Seja por uma boca porca na rua dita por um estranho, seja por um grupo de idiotas que a decide seguir só para lhe meter medo, seja por um ataque sexual consumado, entre tantas outras. No que toca ao assédio – e não, não estou a falar de piropos lisonjeiros – faz já simplesmente parte da rotina da maioria de nós.

Mães, avós, filhas, irmãs, namoradas, amigas: imaginem que o cenário deste vídeo acontecia com alguma delas. Tinha piada? Era assim tão hilariante? Calculo que não. É simplesmente nojento, ofensivo, preocupante, revoltante. Então por que é que continuamos a banalizar esta situações tanto em vídeos idiotas na web, como em anedotas ou imagens e memes com piadolas sobre aquilo que na realidade são problemas graves e reais da nossa sociedade? Comportamentos que não devem ser repetidos e que muitas vezes incorrem em crimes?

Ainda ontem a revista Visão lançou uma campanha contra a violência no namoro, que teve como ponto de partida os recentes números da UMAR: em Portugal, um em cada quatro jovens acredita que a violência no namoro é normal. Quando pensamos que as redes sociais são os atuais meios onde eles mais se movem e interagem, ainda mais preocupante se torna que exemplos como o deste vídeo - que simplesmente desumaniza a figura feminina e reduz a masculina ao papel de agressor - sejam aos milhares.

Quer queiramos quer não, são também estes os exemplos que inevitavelmente os nossos adolescentes – futuros adultos - estão a ver. Todos sabemos que não são corretos, mas a sociedade também ainda nos continua a dizer que se não nos rirmos deles somos uns “bota de elástico”, gente que leva tudo “demasiado a sério”, que não consegue separar as águas e, potencialmente, uns feministas recalcados. Mas enquanto nos continuarmos a rir deles estamos a legitimá-los. E nada de bom pode resultar daí.