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Expresso

A vida de saltos altos

As várias mulheres de Gloria Steinem

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Comecemos pela primeira. Chamam-lhe Mama Masika e para mais de dez mil mulheres e meninas tem sido realmente mais do que uma mãe. Masika vive na República do Congo, onde todos os anos os conflitos armados levam a que mais de 400 mil mulheres sejam abusadas sexualmente. Quando toca a dizimar comunidades, as violações são verdadeiras armas de guerra. Masika conhece essa realidade. Foi alvo de uma violação em grupo e sobreviveu. Tal como as suas filhas, que na altura tinham 14 e 12 anos. Já se passaram vários anos mas nunca poderá esquecer esse dia. O dia em que a sua vida, tal como a conhecia, acabou.

Se a brutalidade do abuso sexual é um flagelo no Congo, o que se segue a ele também é. Masika e as suas filhas acabaram repudiadas pela família. Foram consideradas “prostitutas” por terem sido violadas e consequentemente afastadas do seio da sua aldeia. Foi assim que, em 2000, esta mulher começou, sozinha, a construir um novo rumo para si, para as suas filhas e para os netos resultantes daquelas brutais violações. A ela começaram-se a juntar mais mulheres que tinham vivido a mesma situação, acabando por construir uma pequena aldeia auto-sustentável, que vive da agricultura e da compreensão que só a dor consegue gerar.

Pela mão de Mama Masika já passaram 10.123 mulheres e meninas, todas elas vítimas de abusos sexuais. Muitas delas não sobreviveram e foram enterradas por esta mãe congolesa. Mas todos os dias chega mais uma. Esta história de coragem é a primeira de uma série documental assinada pela grande Gloria Steinem, que estreou ontem no Viceland Channel.

Ver esta série é tornarmo-nos testemunhas

Para quem nunca ouviu falar deste nome, Gloria Steinem é uma escritora, ativista e líder feminista norte-americana, provavelmente uma das mais respeitadas de sempre. Atualmente com 82 anos, é a primeira vez que assina uma série televisiva e o tema escolhido fica claro logo no título: “Woman”. Começou ontem e, durante oito semanas, vão ser publicados oito pequenos documentários gravados um pouco por todos o mundo, com histórias que vão desde a violência contra as mulheres no Congo, aos casamentos infantis na Zâmbia ou até mesmo aos abusos sexuais dentro do universo militar dos Estados Unidos. O objetivo? Confrontar problemas eternamente marginalizados, como a discriminação e a violência contra as mulheres.

Numa entrevista ao New York Times, Steinem tentou explicar a importância de se dar voz e palco a estas histórias: “Vê-las é o mais perto que podemos estar do que se passa no terreno. É sermos testemunhas. E as pessoas que estão a passar por estas situações difíceis precisam de testemunhas, e de pessoas que as possam ajudar”. Claro que podíamos dizer que são também muitos os homens que neste momento estão a viver abusos mundo fora. Mas isso não nos pode impedir de perceber que as mulheres são, em maior escala, alvo de violência e discriminação brutal ainda um pouco por todos os continentes. E que faz sentido que surja uma série só sobre elas.

Esperemos que “Woman” chegue também a Portugal em breve. Até lá, deixei-vos em cima o trailer do primeiro episódio, com a história de Mama Masika e em baixo partilho também o trailer geral da série. Nenhum deles é fácil de ver, mas sermos as tais testemunhas é essencial para ganharmos consciência do que se passa no mundo. E do longo caminho que ainda temos a percorrer.