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Expresso

Mulheres que são consideradas “restos”

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“Arranja alguém para casar”. “Não morro em paz se não casares”. “Não sejas tão independente”. “Ela é tão teimosa”. “És demasiado exigente”. “És uma sheng nu”. Frases ditas pelos próprios pais às suas filhas, numa tentativa de exercerem pressão para se casarem, quer amem ou não alguém. Traduzida à letra, a última expressão significa “resto de mulher”. Basicamente, um adjetivo usado na China quando alguém se quer referir a uma mulher com mais de 25 anos que ainda não casou.

Já há uns tempos me tinha cruzado com um ensaio fotográfico de Klaudia Lech que focava precisamente a realidade das “sheng nu” na China. Mulheres solteiras, com cerca de 30 anos, bem-sucedidas, mas consideradas um “resto” pela própria família. Este trabalho da fotógrafa norueguesa retratava a realidade destas mulheres e chamava à atenção para a necessidade de mudança numa sociedade que está em constante mutação. O papel da mulher tem vindo a alterar-se e, cada vez mais, as jovens querem ter as rédeas do seu futuro. Algo que nos pode parecer óbvio, mas que gera uma gigante controvérsia num país onde a instituição família é o centro do universo.

Recentemente, uma marca de cosméticos chinesa lançou uma poderosa campanha que foca precisamente a problemática das “sheng nu”. Claro que também os homens mais jovens sofrem esta pressão, mas não são considerados “restos” e o respeito pelos seus sucessos profissionais é substancialmente maior. Além de relatos de filhas e de pais, com as suas diferentes perspetivas, o site da campanha conta a história de diversas mulheres alvo de tal estigma, revelando as suas vidas para além do rótulo de “resto de mulher”.

Neste mercado de casamentos negoceiam-se mulheres como se fossem objetos

O vídeo que acompanha a campanha mostra, inclusive, um “mercado de casamentos”, onde publicamente os pais tentam negociar noivos para as filhas. Em Shangai, em 2016. Desde o emprego ao rendimento mensal, passando pela fotografia e bens que possui, tudo é descriminado em praça pública. Como se estivessem a vender um pedaço de carne ou um carro. Mas o que realmente está a ser negociado é o futuro de seres humanos. De filhas que são consideradas “restos” aos olhos de uma sociedade que ainda encara ao papel feminino como algo que está estritamente ligado ao casamento e à maternidade. Uma função primordial e, supostamente, inquestionável. Cliché esse que se prolonga há séculos, não apenas na China, mas em inúmeras partes do globo.

Ser bem-sucedida profissionalmente não é valorizado no que toca à felicidade de uma mulher chinesa. Nem muito menos a sua vontade. Se simplesmente uma mulher não deseja casar e ter filhos é então vista como alguém com problemas sérios, uma ‘ovelha negra’ da sociedade. Se põe a necessidade de amor para embarcar numa relação acima da pressão familiar para cumprir o seu dever de mulher – ou seja, casar e ter filhos –, é tida como egoísta. A homossexualidade nem sequer entra na equação. Respeitar os pais é a maior regra quando se fala da vida familiar na China e não casar é uma falta de respeito, uma das maiores.

Embora esta seja uma campanha de cariz comercial, o tema pôs a China – e o mundo – a falar sobre este eterno desrespeito e menorização no que toca à vida feminina. Tornou-se numa celebração às mulheres independentes e realizadas noutros aspectos das suas vidas. Livres enquanto pessoas individuais, responsáveis pelas suas próprias escolhas, incluindo a importância do amor numa relação, que deveria ser muito mais do que um contrato por conveniência. Orgulhosas de si mesmas, felizes sozinhas ou acompanhadas. Sem regras pré-definidas.

“Não deixem a pressão ditar o vosso futuro”, lê-se como frase final desta campanha. Seja na China ou em Portugal – onde a pressão familiar para casar e ter filhos continua ainda a ser tão grande – esta mensagem é válida. Para mulheres, mas também para homens.

Espreitem o vídeo em baixo, vale bem a pena. Quanto à A Vida de Saltos Altos, vai de férias e só volta em maio. Até lá!