Siga-nos

Perfil

Expresso

O lado negro dos comentadores online

  • 333

Todos os dias sou, invariavelmente, insultada por pessoas que leem os meu artigos de aqui n’A Vida de Saltos Altos. Atenção: não estou com isto a carpir mágoas, já vão perceber porque dou o meu exemplo. Ser insultada quando se dá a cara por uma ideia, opinião ou até ao contar uma história, faz parte da dinâmica do universo online. Um universo onde muito facilmente se perdem filtros base, como o respeito ou o bom-senso. Danos colaterais do suposto anonimato vivido na web. Não é bonito, mas, lá está, faz parte. E quem está deste lado só tem duas opções: ou passa o dia irritado e com vontade de entrar num bate boca desmedido com os comentadores que disparam insultos em vez de opiniões construtivas (deveria ser esse o objetivo das caixas de comentários) ou simplesmente habitua-se e só vai espreitar a discussão – que, felizmente, muitas vezes também é construtiva – depois de esta ter sido moderada e as piores ofensas gratuitas banidas. Eu escolho a segunda.

No jornal The Guardian, ao longo dos últimos seis anos a redação foi observando o comportamento dos seus leitores. Uma constatação foi rápida: era impossível manter os textos com caixas de comentários sem ter alguém a moderar, uma vez que todos os dias ali se cuspiam, por escrito, verdadeiros discursos de ódio ora contra os autores dos textos, ora entre leitores, ora contra os visados nos artigos. E uma coisa foi-se tornando óbvia: as mulheres eram as pessoas mais insultadas no meio disto.

Dos 10 autores mais insultados, oito são mulheres

Esta terça-feira, o The Guardian publicou um artigo bem interessante intitulado “O Lado Negro dos Comentários do Guardian”, onde explica passo a passo a análise exaustiva que fez a mais de 70 milhões de comentários, com especial enfoque naqueles que tiveram de ser banidos por violarem os padrões de comunidade do site do jornal. E a primeira conclusão foi ao encontro daquela que era uma percepção da redação. Sim, os artigos escritos por mulheres eram, largamente, alvo de maior quantidade de comentários abusivos do que aqueles escritos por homens. Independentemente do tema.

O artigo teve, assumidamente, como ponto de partida as questões de género. E os números são curiosos: no top 10 de autores mais insultados, oito são mulheres. E no caso dos dois homens presentes neste “ranking de insultos” – chamemos-lhe assim – um é negro e o outro é homossexual. Quanto ao top 10 de autores menos insultados: todos eles homens.

Também no que toca às secções dos artigos, os escritos por mulheres eram, em todas elas, alvo de maior número de comentários abusivos. Número esse que se tornava ainda maior em seções consideradas mais masculinas, como, por exemplo, desporto e tecnologia. No que toca a homens amplamente alvo deste tipo de insultos, estão aqueles que escrevem para a secção de moda, considerada mais feminina. Além das mulheres, ficou também claro que as minorias étnicas, religiosas ou LGBT eram, logo a seguir às mulheres, os maiores alvos de comportamentos abusivos.

O Guardian dá ainda alguns exemplos: uma jornalista escreve sobre uma manifestação em frente a uma clínica onde se fazem abortos e um leitor comenta “És tão feia que se ficasses grávida até eu te levava a fazer um aborto”; uma inglesa com ascendência muçulmana escreve sobre a sua experiência no que toca a islamofobia e um leitor diz-lhe, “devias casar com um soldado da ISIS para ver o que é bom”; uma correspondente negra conta a história de um afro-americano morto pela polícia e um comentador escreve “esta gaja é uma racista que odeia brancos”. Algum deste comentários acrescenta alguma coisa?

“Esta cronista é chata, insuportável e intolerável. Que tipo de homem a quer?”

Quanto aos temas que suscitam comentários mais violentos – sem surpresas, pelo menos para mim – estão a violência sexual e o feminismo. De Inglaterra para Portugal, acredito que a diferença não seja muita quando se escreve recorrentemente sobre isto. Mas será que, se estes temas que abordo por aqui fossem escritos por um homem, suscitariam à mesma tantos insultos gratuitos? Ou será que o facto de ser mulher também serve de rastilho? Dá que pensar. Excluindo aqueles que se referem à senhora minha mãe e as insinuações que envolvem a minha vida afetiva e sexual, aqui ficam algumas pérolas recentes, bem demonstrativas da irrelevância que trazem à discussão: “Por favor deixe de ser esta mulher repugnante”; “Esta Paula Cosme Pinto é uma tipa sem qualquer talento e beleza”; “esta gaja esfola homens vivos ao pequeno-almoço”; “Esta cronista é chata, insuportável e intolerável. Que tipo de homem a quer?”.

Talvez daqui a seis anos o The Guardian publique outro artigo onde estuda a mudança de comportamentos dos comentadores e o decréscimo dos insultos gratuitos na web. Espero que sim, seria sinal de que o mundo online já não é palco de intolerância e falta de civismo, algo que não é mais do que um espelhar da realidade fora dos computadores. Onde frustrações são despejadas em forma de insulto ou discurso de ódio ao próximo. Onde o preconceito continua a ser latente.

Felizmente, não é só a isso que se resume o que vejo por aqui. E embora, enquanto mensageira, apanhe com muitas setas no peito, é com prazer que, volta não volta, espreito belíssimas discussões sobre temas que precisam urgentemente de ser debatidos. Só assim é que se pode evoluir em sociedade: ouvindo, comunicando, trocando opiniões, divergindo, refletindo. Obrigada a todos os que, por aqui, fazem parte dessa discussão saudável.