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Expresso

O assédio sexual em transportes públicos é um cliché. Têm dúvidas?

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Se um estranho lhe ejaculasse em cima dentro de um autocarro, em hora de ponta, como é que reagiria? Esta pergunta não é descabida, entendam. Aliás, é uma pergunta que sem tido feita massivamente na última semana, após uma estudante universitária de Curitiba, no Brasil, ter partilhado no Facebook o relato do abuso de que foi alvo durante a viagem de regresso a casa. Resumindo: Graziela, de 22 anos, ia num autocarro apinhado de gente, desejosa de chegar a casa para poder descalçar as botas quentes que lhe magoavam os pés, quando um homem se começou a tentar roçar nela. Ela afastava-se, ele chegava-se. Deu-lhe com o cotovelo mas não foi suficiente, o homem com idade para ser seu pai continuou. Quando o ouviu gemer baixinho perto do seu ouvido, a jovem, incomodada com tal comportamento, aproveitou uma paragem para chamá-lo à atenção e sair do autocarro. O homem fingiu que não era nada com ele e ninguém reagiu em sua defesa. Quando chegou à rua, olhou para a sua saia e reparou que o homem lhe tinha ejaculado em cima.

Estava a pouco mais de cinco minutos de casa e foi a sua mãe que a recebeu, lavada em lágrimas. De raiva, tristeza, irritação e impotência. “Eu não quero mais ligar pra minha mãe chorando, eu não quero mais ter medo de andar na rua, eu não quero mais me culpar por ser a vítima, eu não quero mais ter que pensar no tamanho da minha saia antes de sair de casa, eu não quero ter que limpar a sujeira dos outros”, escreveu a jovem na sua página de Facebook “com as mãos ainda tremendo”, juntamente com uma foto da sua saia manchada. “Agora, chegando em casa, não estou feliz por tirar essas botas quentes. Agora, chegando em casa, estou limpando de mim mais um dia difícil de se chegar em casa.”

Reprodução da imagem partilhada no Facebook

Reprodução da imagem partilhada no Facebook

“Queixa para quê? Isto acontece a toda a hora e ninguém quer saber”

Comportamentos sexuais abusivos dentro de transportes públicos, infelizmente, é um cliché. Mas não é só nesses sítios apinhados de gente que tal acontece. Perguntem às mulheres à vossa volta e uma boa parte vai dizer-vos “já me aconteceu” ou “conheço alguém que passou por isso”. Dois exemplos recentes no meu universo: uma amiga minha estava a viajar sozinha em Itália quando deu com um homem a masturbar-se a olhar na sua direção, enquanto ela apanhava sol à beira de um rio. Lembro-me também de uma mulher no metro de Lisboa, em hora de ponta, que chamou um homem à atenção discretamente. Ele, em resposta, decidiu insultá-la com frases como “mas alguém se quer esfregar numa gaja feia como tu?”. A senhora saiu na paragem seguinte e, tal como no caso da estudante brasileira, ninguém abriu a boca para a defender. Em casos destes, isso também é um cliché. Ninguém quer problemas. Saí para lhe perguntar se estava bem ou se queria que fosse com ela apresentar queixa aos seguranças da estação, mas a sua resposta foi clara: “Queixa para quê? Isto acontece a toda a hora e ninguém quer saber.”

A verdade é mesmo essa. Assédio do género acontece diariamente, debaixo do nosso nariz, às nossas mães, filhas, amigas, irmãs. O caso de Graziela não é uma novidade, isto sempre aconteceu. A única coisa que é novidade é a força das redes sociais enquanto rastilho para fazer explodir relatos destes, tornando-os virais em poucas horas. E não são virais apenas pela bizarria implícita, são virais porque há muita gente a rever-se neles e a partilhá-los como exemplo. Contudo, à mesma velocidade que histórias destas se espalham, também as dúvidas e o bullying online começam. E Graziela está neste momento a precisar de aconselhamento especializado graças às ofensas e ameaças que tem recebido pela mesma rede social onde contou a sua história.

“É mais fácil desacreditar uma mulher do que acreditar que isso acontece todos os dias”

“Safadinha”, “pilantra”,“feminazi”, “nojentinha”, “mentirosa”, “exibicionista” "fanfic de esquerda" e "vigarista" são apenas algumas das ofensas que lhe têm sido dirigidas por centenas de pessoas que dizem não acreditar na sua história e que, por isso, se sentem no direito de a insultar em praça pública. Há quem garanta que a saia estava demasiado sem rugas para alguém que tinha estado num autocarro cheio de gente, que a mancha é feita com leite condensado, que nenhum homem conseguiria ejacular tanto de uma vez, que ejacular para cima é impensável ou que o sémen secaria em menos de cinco minutos e que nunca poderia ter aquele aspecto. “Como disse a minha mãe, se acham que era leite condensado, deveriam ter vindo aqui limpar. Não pensei em ligar para a polícia porque estava sem celular. Estava nojenta, estava suja. E nem sabia direito se adiantaria denunciar isso”, explicou a jovem numa entrevista recente.

Entretanto a denúncia foi feita, uma entre as mais de 100 recebidas na Guarda Municipal de Curitiba, na sequência do lançamento da campanha “Busão sem Abuso”. No caso de Graziela, será que alguém vai mandar analisar, por exemplo, os restos de sémen na sua saia? Será que as autoridades vão verificar as câmaras de vigilância de cada estação em busca do agressor? Será que vão acreditar no seu relato, ou irão também assumir que tudo isto não passa de uma invenção de uma feminista de esquerda, desejosa de chamar à atenção? Muita água vai correr até ao desfecho disto, mas uma coisa é desde já visível: a cultura de preconceito, intolerância, machismo e eterna descredibilização de uma possível vítima de assédio e abuso sexual.

A discussão que se desenrolou em torno deste caso não teve enfoque no que deve mudar naquela sociedade para que casos destes – que são crime - deixem de acontecer. E, por favor, não me venham dizer que a solução passa por segregação das mulheres nos transportes públicos, isso chega até a ser ofensivo para o sexo masculino, que fica no patamar do animal selvagem que não consegue conviver com uma mulher sem a atacar. O que é altamente perturbador é perceber que o que levantou mais controvérsia foi, sim, a suspeita de autovitimização das mulheres, que, pelos vistos, são capazes de tudo hoje em dia para denegrir a imagem masculina.

Como diria Graziela em resposta aos insultos: "É mais fácil desacreditar uma mulher do que acreditar que isso acontece todos os dias". Nem mais.