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Expresso

Uma venda de cupcakes acaba com ameaças de morte e violação

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Imaginemos que um grupo de estudantes universitárias decide fazer uma venda de bolos caseiros como forma criativa de chamar à atenção para as diferenças salariais entre homens e mulheres. O método de consciencialização é simples: o preço a pagar pelo bolo será diferente para homens e mulheres, baseado na proporção média dos salários auferidos por ambos. Dados do nosso Ministério do Trabalho, revelavam que por cá as mulheres recebem, em média, menos 18,5% do que os homens, embora sejam 60% da força laboral. Feitas as contas, nessa venda de bolos as mulheres pagariam menos 18% do que os homens. Simples, fácil de compreender e simbólico. Agora imaginem que essas mesmas estudantes acabavam a ser insultadas e a sofrer ameaças de violação ou até mesmo de morte por parte de homens que não concordam com isto. Não seria, no mínimo, preocupante e perturbador para todos nós enquanto sociedade livre e igualitária?

Ora bem, isto não aconteceu por cá, mas sim na Austrália, com as respetivas proporções de discrepâncias salariais entre géneros naquele país. Uma venda de cupcakes tornou-se num palco de horrores, onde uma discussão que deveria ser saudável – por mais que haja discórdia – se transformou num palco público para a repressão e demonstrações de agressividade. Baseadas simplesmente na divergência de opinião sobre dados que até são públicos (tal como cá, já agora) e sobre a necessidade de existência de feminismo nos tempos de hoje. Que, basta olhar para este exemplo, continua a ser altamente pertinente. Para homens e mulheres.

“Vamos violar estas vacas feministas”

Através da página pública do evento no Facebook, por chat, mensagens privadas no telemóveis e, num caso, mensagem falada deixada no voice mail, as organizadoras desta ação feminista foram alvo das mais descabidas agressões e ofensas escritas e receberam todo o tipo de ameaças inimagináveis à sua integridade física. Havia quem lhes dissesse que deveriam ser violadas, quem alegasse que estavam era a precisar de apanhar para aprender quem manda ou quem alegasse que deveriam mesmo ser mortas. Na Austrália, em 2016.

Ou seja, vamos tentar compreender pelo menos o lado mais básico desta história: pagar simbolicamente mais trinta e poucos cêntimos por um bolo indignou dezenas de homens, que aparentemente não perceberam ou discordaram do simbolismo inerente dessa diferença de preço na venda do bolo. Sendo que tinham livre arbítrio quanto a ir comprar o bolo ou não, ninguém os obrigava.

Contudo, esses mesmos homens aparentemente não ficam indignados quando se fala de agressões verbais e físicas a mulheres. Nem se coíbem de o fazer em praça pública. Acham-nas legítimas para defender o seu ponto de vista e demonstrar a sua indignação. A mulher continua a ser, portanto, a figura frágil que pode ser silenciada à base da agressão. Não me admira que o primeiro-ministro australiano tenha recentemente vindo dizer publicamente que “a violência contra as mulheres é a vergonha nacional da Austrália.”

Enquanto uma simples divergência de opiniões entre homens e mulheres leve a uma tão rápida demonstração de violência em vez do diálogo, ainda por cima partindo-se do princípio de que tal atitude é legítima e merecida, algo está mal. Mesmo muito mal.