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Expresso

A pobreza anda de mão dada com o sexismo

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“Em nenhum sítio do mundo as mulheres têm as mesmas oportunidades que os homens. Em nenhum sítio”. Esta é a frase que abre o relatório 2016 da ONE, o segundo sob o título “ A Pobreza é Sexista”. Esta associação, que se dedica a estudar e implementar no terreno ações ligadas ao combate da pobreza extrema e das doenças que podem ser prevenidas, explica passo a passo quais os factores que continuam a ser predominantes no que toca à discrepância de oportunidades entre homens e mulheres no mundo inteiro, mas com um enfoque muito específico em países subdesenvolvidos, principalmente no continente africano.

Do acesso à educação à saúde, passando pelas oportunidades de trabalho, tarefas domésticas e casamentos forçados, o cenário apresentado no relatório é claro: ainda há uma fosso gigante no que toca a oportunidades entre homens e mulheres. E a pobreza anda eternamente de mão dada com esta discrepância, pelos mais variados motivos. Ainda há pouco tempo Melinda Gates falava sobre isto na carta anual da fundação do casal Gates, chamando à atenção, por exemplo, para a questão da pobreza de tempo, tantas vezes menosprezada.

No top 20 dos países mais difíceis para se nascer mulher surge a Nigéria (seguida da Somália e do Mali), um país onde as meninas têm parcas oportunidades de acesso à educação, onde uma em cada quatro mulheres dá à luz bebés malnutridos, onde apenas 2,6% das mulheres têm conta bancária e menos de metade da população feminina, em idade adulta, tem acesso ao mercado de trabalho.

Contudo, muitas das dificuldades vividas pelas nigerianas são as mesmas enfrentadas por milhões de outras mulheres, noutros países. Se quiserem ler o relatório completo, basta clicarem aqui e têm acesso a ele. Eu ontem cruzei-me com este documento e não consegui parar de o ler. No fim, fica uma mensagem importante: “ O sexismo é global. A luta contra ele também deveria ser.”

Deixo-vos em baixo cinco ideias chaves deste relatório que merecem reflexão:
- Em 2016, meio bilião (escala EUA) de mulheres continua a não saber ler ou escrever e o acesso à educação é negado a 62 milhões de meninas. Há imensas razões para que as meninas sejam mais afastadas da escola do que os meninos: problemas de segurança, assédio sexual, falta de condições sanitárias e acesso a água potável, aumento de responsabilidades nas tarefas domésticas e – em muitos casos – simplesmente porque a educação de uma rapariga é culturalmente mais desvalorizada do que a de um rapaz.

- Uma em cada três raparigas de países subdesenvolvidos vai casar antes dos 18 anos, e uma em cada nove vai fazê-lo antes dos 15. Globalmente, 120 milhões de raparigas são violadas ou sexualmente assediadas antes dos vinte anos. Em diversos países subdesenvolvidos, mais de metade das adolescentes reportam que a sua primeira experiência sexual foi forçada. A maior parte dessas experiências ocorrem com homens mais velhos, muitos deles parceiros íntimos de crianças. Relações que, tal como a violência sexual, aumentam em 50% o risco de contração de HIV. Por causa destes e outros fatores, em África, em 2014, 74% das adolescentes infetadas eram raparigas; e quando falamos de mulheres de todas as idades na África subsaariana, há 12.500 novos casos de adolescentes infetadas todas as semanas.

- Todos os dias, problemas relacionadas com a gravidez, que podiam ser facilmente prevenidos, tiram a vida a 830 mulheres no mundo inteiro, muitas delas ainda adolescentes. De todas estas mortes, 99% acontecem em países da África subsaariana. Uma zona do mundo onde as mulheres ainda vão ter de esperar mais de 160 anos até terem as mesmas chances de dar à luz um bebé com vida do que as mulheres de países desenvolvidos.

- Quando falamos de oportunidades económicas, a discrepância entre as meninas e os seus irmãos continua a ser extensa. Demasiadas mulheres de países em desenvolvimento sofrem de “pobreza de tempo”, principalmente por causa do trabalho não pago. São elas as responsáveis pelas tarefas domésticas: apanhar lenha, tratar de pequenas plantações, cozinhar, ir buscar água, tratar das crianças e todas as outras tarefas relacionadas coma vida familiar. Mulheres e meninas passam entre 4 a 5 horas por dia a recolher matérias combustíveis e outras quatro a cozinhar.

- Globalmente, 50% das mulheres participam no mercado de trabalho, enquanto que os homens são 77% da força laboral. Quando as mulheres trabalham, têm elevadas probabilidades de receber ordenados entre 10 a 30% mais baixos do que os homens. Em 2014, 90% das mulheres em países com economias fortes tinham acesso a instituições financeiras, comparado com apenas 19% das mulheres de países com economias subdesenvolvidas. Em 155 países do mundo, as leis ainda fazem diferenciação entre homens e mulheres.