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Expresso

Breast ironing: o ritual atroz que afeta milhões de meninas

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A mutilação genital feminina é um dos temas recorrentes em campanhas de sensibilização sobre a violência sobre a mulher e em múltiplos países já foi mesmo criminalizada. Contudo, a excisão do clítoris não é única prática violenta a altamente traumatizante a que meninas estão sujeitas em inúmeros países do globo, relacionada com a sexualidade, a pureza e as tradições. O “breast ironing” é outra das formas de mutilação que assombra atualmente a vida de mais de 3,8 milhões de pré-adolescentes em todo o mundo.

Pode parecer verdadeiramente inacreditável, mas o método é este: com ferros ou pedras quentes, batem-se e esmagam-se os seios em formação das meninas que estão a entrar na adolescência, com o intuito de travar o seu crescimento. Desta forma, o seu peito não desenvolverá e as suas formas tornar-se-ão menos “apetecíveis” aos olhos de um possível violador. A prática é inenarrável, mas os progenitores têm por trás uma explicação que lhes parece lógica: tencionam proteger as filhas de ataques de cariz sexual, fazendo com que cheguem puras aos casamentos. Sem a dita pureza da virgindade, dificilmente conseguirão arranjar um bom marido e as suas vidas poderão estar condenadas à miséria.

Esta prática – que não é mais do que uma tortura praticada durante meses a fio – costuma atingir meninas entre os 8 e os 13 anos. Em mais de metade dos casos, diz a ONU, são as próprias mães que a infligem às filhas. Com a certeza de que quanto mais tarde ela despertar a atenção dos homens, mais possibilidades terá de prolongar a sua educação antes de um casamento. Casamento esse que muitas vezes acontecesse quando as meninas têm pouco mais de 10 anos.

Começou nos Camarões, mas há mil meninas em risco no Reino unido

Quanto à perspetiva de uma violação, os pais mostram-se coniventes com a prática uma vez que as protege dos homens que não conseguem conter os seus impulsos sexuais com tais ‘corpos provocadores’. Ou seja, o problema não está no ato criminoso de um violador, está sim nos seios redondos e nas ancas torneadas que as meninas começam a ter durante a puberdade. A culpa é delas e das suas formas corporais. Portanto, não há nada como – em nome da tradição e da religião – privá-la do desenvolvimento natural do seu corpo e inibi-la da sua feminilidade, da sua sexualidade, da sua auto-estima e da sua liberdade pessoal enquanto ser humano.

Cancro, cicatrizes, infeções e quistos são apenas são alguns dos problemas associados a esta prática nefasta, que pode mesmo causar a morte. Mesmo assim, o “breast ironing” é feito há centenas de anos, principalmente em países africanos, como a Nigéria, Chade, a África do sul e os Camarões, onde se estime que tenha tido origem. Contudo, tal como acontece com a excisão do clítoris – que ainda é praticada em Portugal, por exemplo – esta prática continua a ser comum também em países desenvolvidos em famílias de migrantes africanos.

No Reino Unido, onde se estima que mais de mil meninas estejam atualmente em risco de ser vítimas, a discussão sobre esta prática chegou na semana passada ao Parlamento, com um pedido urgente de criminalização do “breast ironing” e de maior articulação das autoridades e serviços ligados às crianças – polícia, escolas, hospitais, assistente sociais – para ajudar a prevenir a perpetuação de tal ritual.

“Estamos a falar de abuso infantil, é algo ilegal, é crime, não é aceitável”, ouviu-se no parlamento inglês, na semana passada. Tão simples quanto isto, não há justificação possível.