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Expresso

Violações em tempos de guerra: o crime que ninguém quer ver

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Sudão, 2014.“Primeiro mataram-lhe o marido. Depois, os soldados assassinaram os seus filhos, de 5 e 7 anos. Quando os homens de uniforme lhe arrancaram a filha das mãos, Mary achou que tudo aquilo não poderia ficar pior. Mas ficou “Disseram-nos que nos iam apenas violar, como se uma violação fosse diferente da morte”. A filha, de 10 anos, morreu após ter sido brutalmente violada por três soldados. Mary sobreviveu e a sua história, contada na primeira pessoa, abre a reportagem dolorosa, mas imperdível, da revista Time, intitulada “O crime de guerra secreto”.

Aviso: não é fácil ler este artigo , agora totalmente disponível no site da revista. Assinado pela jornalista Arin Baker e fotografado por Lynsey Addario, revela relatos duros de mulheres que sobreviveram aos terrores da guerra, guerra essa que lhes levou os maridos e os filhos das formas mais indescritíveis possíveis. Violadas repetidamente por soldados, muita carregam no ventre o filho gerado nesse momento traumático que nunca poderão esquecer, mas que o mundo continua a desvalorizar quando se fala em crimes de guerra.

A mensagem do artigo é clara: “As violações na guerra são tão antigas quanto a própria guerra. Mas a natureza íntima desta agressão sexual significa que os horrores vão frequentemente ficando indocumentados, higienizados dos livros de história e encobertos por notícias que se concentram apenas em mortes e números de refugiados. Ainda que a violação em massa seja comum em tempos de guerra, isto só a torna mais corrosiva. Ela espalha doença. Estigmatiza e destrói famílias e deita abaixo sociedades. Deixa filhos indesejados que servem como lembretes constantes do pior dia da vida daquela mãe. ‘A violação é uma arma ainda mais poderosa do que uma bomba ou uma bala’, diz Jeanna Mukuninwa, uma mulher de 28 anos, oriunda de Shabunda, na República Democrática do Congo. ‘Pelo menos com uma bala, a pessoa morre. Mas, se tiver sido violada, essa pessoa é vista pela comunidade como alguém que está amaldiçoada. Após uma violação, ninguém vai falar com ela; ninguém vai querer vê-la. É uma morte em vida.”

Uma violação em tempos de guerra não pode ser vista como “apenas uma violação”

No último ano e meio muito se tem falado com horror sobre os mercados de escravas sexuais feitos por e para soldados do Daesh. Mas as violações em massa, o abuso de poder e a exploração sexual em contexto de guerra não é novidade na história mundial. Aliás, é um cliché, daqueles que todos sabem, mas ninguém quer falar. Basta olharmos para os últimos 100 anos da história da humanidade e perdemos conta às situações em tanto semelhantes ao que se passa na Síria. Durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados japoneses raptavam mulheres e meninas sul-coreanas e punham-nas em bordéis para que os soldados pudessem “aliviar a tensão”. Violadas dezenas de vezes por dia, eram as chamadas mulheres de conforto e só em 2015 viram justiça ser feita. Na mesma época, os russos fizeram o mesmo às alemãs, por exemplo, e os alemães fizeram-no às russas, às polacas e por aí fora. Os soldados norte-americanos fizeram o mesmo a milhares de meninas e mulheres vietnamitas durante a Guerra no Vietname. E durante a Guerra na Bósnia, os soldados Sérvios tinham verdadeiros campos de violações.

Nos últimos anos, o Boko Haram fez o mesmo na Nigéria, raptando milhares de mulheres para se tornarem esposas dos seus soldados. E só no Congo, estima-se que mais de 200 mil mulheres e crianças tenham sido violadas em contexto de guerra. Nesse país, nos últimos 20 anos nasceram mais de 50 mil crianças resultantes destes crimes. Como não têm nome de pai, não podem ter um cartão de identificação e serão vítimas do estigma toda a vida. Estes são apenas alguns exemplos das muitas (demasiadas) violações em massa perpetuadas durante conflitos armados, e que têm roubado a dignidade e a vida a tantos inocentes mundo fora. “As violações são um dos crimes de guerra menos reportados de sempre. As mulheres, quando sobrevivem ao ataque, raramente querem falar disso. Só ouvimos falar sobre os incidentes mais brutais ou então aqueles que são feitos publicamente e que toda a comunidade vê”, garante Pablo Castillo Diaz, especialista da Nações Unidas em violência sexual em conflitos.

O que está a ser feito para mudar isto? Espreitem o artigo da Time, está tudo lá. O que já foi feito. O que falhou. O que tem de ser mudado urgentemente, até porque em jogo continuam a estar neste preciso momento a vida de milhares de mulheres e crianças. Uma violação em contexto de guerra não pode ser vista “apenas” como uma violação. Por mais hedionda que seja a restante realidade em torno do mesmo conflito, nada legitima a sua desvalorização. São crimes de guerra e merecem punição.