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Expresso

As mulheres não são princesas

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Por mais que até possamos gostar do lado carinhoso e romântico que esta palavra abarca, a verdade é que que as mulheres não são princesas. Ou, pelo menos, não são só princesas. Nem podem continuar a ser percepcionadas e educadas como figuras frágeis, que necessitam de eventualmente ser “salvas” ou viver “dependentes” da presença de um príncipe encantado para trilharem o seu caminho para a felicidade. Pelo menos é esta a visão do Escritório de Proteção de Direitos da Infância de Iquiaque, no norte do Chile, onde está a ser posto em marcha um curso de “desprincesamento” para meninas dos 9 aos 15 anos.

A palavra “desprincesamento” é controversa e pode ser facilmente mal interpretada, portanto, vamos por partes. É incontornável: Há décadas que os grandes filmes de animação e os contos infantis mais clássicos apelam maioritariamente à mulher frágil e doce, que, para se conseguir proteger das garras dos malfeitores, invariavelmente precisa de um príncipe encantado. Foi assim com a Branca de Neve, com a Bela Adormecida, com a Rapunzel e com a Gata Borralheira, alguns dos exemplos que continuam a fazer parte das infâncias de meninas ainda hoje. Valha-nos finalmente a Elsa, que parece apelar ao empoderamento feminino. Enquanto educadores temos o dever de explicar que a vida real não é de todo um conto de fadas e ensinar as nossas crianças a serem autónomas nas suas vidas, sejam meninos ou meninas. Mas será que o fazemos de forma igual ou que continuamos a perpetuar estes estereótipos dos contos de fadas?

Não ser princesa não significa ser menos feminina

Ensinar uma menina para ser autónoma e independente não significa reduzi-la na sua feminilidade. Nem muito menos torna-la amarga ou descrente do amor, bem pelo contrário. Por isso, os responsáveis pelo curso deixam claro os seus objetivos: "Tentamos dar-lhes, sim, ferramentas para que cresçam como meninas livres de preconceitos, empoderadas e com a convicção de que são capazes de mudar o mundo, e que não precisam obrigatoriamente de um homem ao lado para isso". Além de aulas de defesa pessoal, peças de teatro com enfoque na liberdade da expressão corporal e atividades manuais, os mentores da ideia estimulam acima de tudo debates sobre temas como a percepção da beleza e da felicidade, além das subtilezas das desigualdades de género nos seus vários espectros.

Mesmo no Chile, um dos países mais estáveis da América do sul, os números vão demonstrando que a paridade ainda está longe de ser alcançada: 48% das mulheres com mais de 15 anos declaram estar à procura de trabalho, sem sucesso. Os homens representam atualmente 72% do mercado de trabalho chileno, um número que torna o país num dos que tem menor participação feminina no que toca ao seu desenvolvimento económico.

Deixar de ver o homem como um príncipe encantado mas sim como um par no toca à vida em sociedade é um dos ensinamentos postos em marcha quando falamos de “desprincesamento”. Tal como aprender a dizer não quando o companheiro – príncipe encantado – tem um comportamento pouco saudável na relação (só no ano passado morreram 45 mulheres em situação de violência doméstica no Chile), rejeitar o papel de submissão enquanto cidadãs de um país democrático ou assumir o papel principal, seja na sua vida pessoal, como na profissional. Ensinamentos que parecem básicos, mas que na realidade ainda fazem sentido em tantos países mundo fora.