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Expresso

A água quando nasce ainda não é para todos

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Foto: We Are Water Foundation

Sabina é uma mãe extremosa, que tenta manter o seu bebé sempre limpinho e que lhe canta suavemente enquanto o embala. Sabina é também uma dona de casa dedicada, com o máximo de cuidado possível com o que diz respeito à higiene do seu lar e da roupa da família. Sabina sabe que o marido gosta de comer, portanto todos os dias é ela que lhe prepara as refeições a tempo e horas. Para que tudo isto seja possível, Sabina tem uma tarefa diária extra: caminhar cerca de 3 quilómetros, duas vezes por dia, para conseguir ir buscar água ao rio. Transporta-a depois às costas até casa, seguindo sempre sozinha ou acompanhadas por outras mulheres e meninas da aldeia por caminhos recônditos onde tudo pode acontecer, desde um roubo a uma violação. Desde os seus dez anos que o faz. Em casa nunca houve torneiras ou sanita, quanto mais água potável.

Lembro-me de há uns anos ter visto este vídeo intitulado “Walking in Sabina’s Shoes” e lembrei-me novamente dele quando há uns dias me chegou aos escritório um bidão de 20 litros de água enviado pela We Are Water Foundation, uma organização que tem como missão consciencializar o mundo para este verdadeiro drama. O tal bidão que me fizeram chegar tem muito de igual ao que inúmeras pessoas mundo fora transportarem diariamente às costas ou na cabeça, em zonas onde a água é potável é uma verdadeira miragem. Acreditem: quando cheio de água, é bem pesado. As mulheres e as meninas são as principais responsáveis por este transporte de água, uma vez que o seu fim é em grande parte para fins domésticos. Mulheres e meninas que sacrificam uma boa parte do seu dia a carregar pesos atrozes nos seus corpos franzinos e que, obviamente, acabam por ver as suas vidas confinadas a estas tarefas.

Hoje, em plano Dia Mundial da Água, as Nações Unidas e a We Are Water Foundation lembram os milhões de raparigas que gastam várias horas por dias para recolher água, algo que as impede, por exemplo, de ir à escola. Ou de algum dia terem acesso ao mundo laboral. Situação que tem um impacto altamente negativo não só no rumo das suas vidas individualmente, como também no desenvolvimento de inúmeras comunidades e países mundo fora.

Um direito humano que milhões de pessoas não têm por garantido

Em 2010 o acesso à água potável e ao saneamento básico foram reconhecidos pelas Nações unidas como uma direito humano, ou seja, todas as pessoas do mundo devem ter acesso diário a água suficiente para uso pessoal e doméstico, a preços acessíveis e em condições seguras. Contudo, os últimos números da ONU mostram que este direito ainda está longe de ser uma realidade para muitos: todos os dias morrem mais de mil crianças devido a doenças relacionadas com o mau saneamento e a falta de água potável. Mais de 2 milhões vivem mesmo sem acesso a saneamento básico. Por cá, de acordo com a Associação Zero, cerca de 22% da população portuguesa ainda não dispões de saneamentos adequados. E Até 2025 estima-se que uma em cada quatro pessoas viva num país afetado pela escassez de água.

Segundo o relatório da ONU para este Dia Mundial da Água, as meninas e as mulheres são as que se encontram em situação mais precária. Porquê? Porque em lugares subdesenvolvidos ou com infraestruturas precárias são precisamente elas as responsáveis pela recolha da água, seja para lides domésticas ou para dar destino às fezes, por exemplo. Muitas continuam a ter de fazer aos tais inúmeros quilómetros diários com bidões às costas para tornar isto possível, com ataques pelo meio que resultam em brutais atos de violência. Além dos enormes riscos para a sua saúde, seja pelo peso que carregam diariamente, seja pela falta de qualidade da água com que fazem tudo nas suas vidas. Vidas essas em muito semelhantes à de Sabina.

Se quiserem ter maior noção de quanto pesa um bidão destes, passem, por exemplo, pelo Roca Lisboa Gallery, onde está uma exposição fotográfica sobre este tema e uma série destes objetos com capacidade para 20 litros. Os mesmos que tantas meninas e mulheres carregam todos os dias. Mais do que a hashtag #nowalking4water que é sugerida para hoje, é importante que todos façamos uma pequena reflexão sobre isto. As consequências a curto e longo prazo são muitas e não afetam apenas estas pessoas que estão longe da nossa realidade onde a torneira pode ficar aberta durante o duche.