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Expresso

Continuamos a educar as raparigas para serem perfeitas?

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Reshma Saujani acha que sim. Tem ascendência indiana, mas nasceu em Chicago. É advogada, faz uma perninha no mundo político e fundou a organização educacional Girls Who Code, que tenta apoiar e incentivar meninas e adolescentes a entrarem, sem medos, no mundo das ciências informáticas. Um mundo que continua a ser maioritariamente masculino. Este fim de semana cruzei-me com o vídeo da sua última participação nas TED Talks, há menos de um mês, e as suas palavras deixaram-me a pensar: “Estamos a educar as nossas raparigas para serem perfeitas e os nossos rapazes para serem corajosos ”. E na opinião dela – da qual eu partilho – isso é um enorme erro.

Vamos voltar atrás no tempo, quase 30 anos. Lembro-me de ser uma miúda de escola primária quando um tio me explicou o que era ser engenheiro informático. Numa altura em que ter um computador em casa era algo quase exótico para a larga maioria dos portugueses, todo aquele universo me pareceu fascinante. Sim, quando fosse grande queria mexer naquelas televisões com teclados e fazer coisas acontecer. Até ao dia em que a minha professora primária – atenção, que até era uma mulher bem progressista para a época – decidiu fazer uma aula dedicada às profissões e todos os meninos disseram o que queriam ser no futuro. Quando chegou a minha vez, mesmo sem saber muito bem o que isso significava, disse que queria ser engenheira de computadores. E a resposta, com uma pequena gargalhada, foi: “Que disparate, isso é trabalho para rapazes”.

Na altura corei e senti-me ridícula. Tão ridícula quanto a minha coleguinha do lado, que quando disse que queria ser modelo teve como resposta que era demasiado gordinha para poder seguir esse caminho. Isto daria outra conversa, mas voltemos à informática. Ouvir que aquilo que eu gostava era coisa de rapazes começava a ser um cliché. Em casa, as birras com a minha mãe aconteciam muitas vezes porque eu teimava em querer fazer as mesmas coisas que o meu irmão mais velho. E mesmo tendo uma mãe igualmente vanguardista quando comparada com muitas outras mães de coleguinhas, passava a vida ouvir que isto e aquilo não eram próprias para meninas. E a receber bonecas no natal quando tudo que eu queria era uma bola ou uma caixa de Legos. erros que mais de 30 anos depois continuam a ser perpetuados por muita gente mundo fora.

Bonecas para elas, carrinhos para eles. Será mesmo assim?

Acredito que muita vezes o façamos de forma inconsciente – nem que seja porque é o caminho mais fácil - , mas continuamos a educar as meninas para a submissão e passividade. Para o papel de cuidadoras, do mundo cor de rosa. Os carrinhos ainda são coisas de rapazes, as meninas brincam com bonecas e com tachinhos. As meninas não devem andar às lutas, já os rapazes é normal que gostem dessas brincadeiras agressivas e de disputa. As meninas não devem trepar às árvores porque se podem magoar, mas os meninos devem porque são naturalmente mais ágeis. As meninas não podem gritar ou falar alto porque é feio, já os meninos, como são “mais estouvados” por natureza, não são repreendidos tão veementemente. As meninas têm de ter o quarto arrumado e devem ajudar a mãe em casa, lá está, porque são meninas. Não é bonito as meninas jogarem à bola, mas se quiserem ir para o ballet toda a gente bate palmas. As meninas não devem andar sozinhas porque é perigoso. As meninas têm de ter boas notas na escola. As meninas devem ser bem-comportadas. As meninas, resumindo, devem ser perfeitas.

Atenção: não há nada de mal em uma menina gostar de brincar com bonecas e ou de gostar de se mascarar de princesa. Tal como não há mal nenhum em um menino gostar de jogar à bola ou de ser hábil no que toca a trepar árvores e a mexer em computadores. Mas também não deveria ser estranho o contrário. O que me parece um péssimo ponto de partida é que continuemos a direcionar as nossas crianças para aquilo que é suposto elas gostarem e serem, porque sempre assim foi. Porque é esperado que assim seja. Seja nos brinquedos, nos comportamentos, na forma como os inserimos em sociedade. Sem percebermos que podemos estar a condicionar as suas escolhas e comportamentos no futuro, sejam rapazes ou raparigas.

Falta de coragem e de encorajamento

Nesta apresentação das TED Talks, Reshma Saujani foca-se na questão feminina e na forma como isso tem vindo a afectar a ascensão profissional das mulheres, década após década. “Muitas mulheres à minha volta assumem que escolheram carreiras onde sabiam à partida que podiam ser boas, perfeitas. E não admira que assim seja. A maioria das meninas são educadas para evitar situações que envolvem risco ou falhanço. São ensinadas a sorrir, a jogar pelo seguro, a conseguirem sempre as melhores notas. Já os rapazes, por outro lado, são ensinados a jogarem com garra, a sonharem alto, a subirem até ao topo da rede de trepar no parque e saltarem sem medos.”

A falta de coragem e de encorajamento é apontada por Reshma como a razão para a lacuna de mulheres em inúmeras carreiras, da política à informática. Em 2012 criou a organização Girls Who Code e todos os dias se depara com a ansia das raparigas no que toca à perfeição. “Muitas das alunas preferem fazer delete do que revelar o processo de tentativa, erro. Um processo que é de evolução, mas que ao não ser prefeito é atirado para o lixo.”

E dá ainda o seu próprio exemplo. Quando em 2010 decidiu entrar na corrida ao Congresso, aquilo que mais ouvia era: “És maluca. Nunca vais conseguir”. Não conseguiu, mas tentou. Tinha 33 anos e, mesmo perdendo de forma esmagadora, sente que foi “a primeira vez” que fez “algo totalmente corajoso na vida, sem estar preocupada em ser perfeita”. E essa é a grande lição que agora quer passar ao mundo. Não pretendendo com isto fazer um elogio ao falhanço, mas sim um elogio à coragem. À capacidade de enfrentarmos os riscos. E de sabermos lidar com a imperfeição confortavelmente, num mundo onde pouco ou nada consegue ser perfeito.