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Expresso

“Sara Carbonero: uma mulher bonita, mas podre”, diz o professor

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Primeiro: “A Sara Carbonero é o exemplo de uma mulher bonita, mas que está podre por dentro, cheia de sífilis”. Segundo: “A Miley Cyrus é o exemplo de uma mulher selvagem e descontrolada". Estas podiam ter sido ofensas proferidas numa qualquer conversa estúpida e inconsequente, daquelas que tantas vezes acontecem entre amigos. E não sejamos mais papistas que o Papa: todos nós já participámos em comentários do género, mesmo que sejamos conscientes das consequências destas atitudes sexistas. Contudo, estas frases não foram ditas num contexto privado, de conversa tonta entre amigos. Foram proferidas por um professor, durante uma aula de dermatologia numa universidade catalã.

Para ajudar os alunos a melhor decorarem as diferenças entre glândulas e doenças como o líquen e a psoríase, um professor de medicina decidiu usar como mnemónica os vários “tipos de mulher” que podem encontrar. Sendo que isto dos “tipos” já é, por si só, altamente revelador da visão misógina que tem do mundo feminino. Com recurso a uma apresentação de power point – cujas imagens mais ofensivas os alunos entretanto tornaram públicas nas redes sociais – o docente dava como exemplo as “galdérias da discoteca” e “as gajas podres”.

Na visão desta pessoa, a glândula sudorípara écrina é a “gaja podre da discoteca”, ou seja, “aquela que foi lá apenas para dançar” e que o faz sozinha. “Mas se alguém quisesse realmente dançar sozinho ficava em casa, de pijama, ninguém se arranja todo, põe maquilhagem e saltos altos para dançar sozinha”, explicou o professor aos seus alunos. Já a glândula sudorípara apócrina é a “galdéria da discoteca”, que aparece sempre nas zonas “mais vagabundas” e que “em pouco tempo está na mão”. No que toca a doenças, o professor apostou ainda em comparar o líquen e a psoríase a uma imagem de um homem do século XIX, lado a lado com Miley Cirus. Ou seja, o líquen era como um homem puro, correto e mais produtivo, já a psoríase era como uma mulher louca e descontrolada.

Um carta aberta que denuncia o método do professor

Podia alongar-me aqui hoje a dizer quão desrespeitosas e misóginas estas comparações foram, tal como quão pouco ético é um professor de faculdade recorrer a mnemónicas do género para ensinar a matéria que lhe competia. Neste caso, o que ensinou foi certamente a apologia ao machismo e à menorização da mulher e isso é mesmo muito grave. Contudo, os alunos que estavam presentes nesta aula deram publicamente voz à sua indignação, enviando uma carta aberta para o portal Vilaweb, onde denunciam o método usado pelo docente. E é às palavras deles que também vou dar voz.

Nesta carta, que pode ser vista aqui, os alunos consideraram o conteúdo daquela apresentação "extremamente machista, degradante e intolerável”. E acham que o facto de o professor ter mandado calar os alunos que decidiram questionar a sua abordagem, é uma forma de “minimização das agressões” implícitas naquelas palavras e de “ridicularização daqueles que fazem queixas e denúncias das mesmas”. Mais de vinte alunos – homens e mulheres - abandonaram mesmo a aula a meio e quando o fizeram o professor ainda os considerou uns “exagerados” e “demasiado sensíveis”.

Na mesma carta aberta, os alunos reforçam ainda – e muito bem! – que este tipo de atitude em que se ataca a figura feminina “apenas por ser mulher legitima a misoginia e a violência contra as mulheres. Toda as pessoas são responsáveis por atos permissivos, é vital que tanto homens como mulheres estejam conscientes disto e que os denunciem”. E rematam: "Entendemos que a agressão não foi só a elas, mas sim a metade da população mundial, às mulheres".

Mais nada a dizer. A não ser: senhor professor, ganhe vergonha.