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Expresso

Esta portuguesa está a salvar vidas de crianças quenianas

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Dizem os relatório das Nações Unidas que quase um milhão de meninas não vão à escola no Quénia. Mas os números reais podem ser bem mais elevados, uma vez que muitas das crianças nascidas em bairro de lata e zonas rurais invariavelmente nem sequer possuem um registo de nascimento. No caso dessas meninas nascidas em meios totalmente desfavorecidos, o seu destino é quase sempre o mesmo: “Sem educação, muito dificilmente irão conseguir sair do bairro de lata. Vão casar cedo com algum vizinho, vão ter quatro ou cinco filhos (ou mais) e vão lutar todos os dias para sobreviver. À porta de casa, vão colocar um tecido no chão e vender vegetais ou roupas em segunda mão”. Palavras de Diana Vasconcelos, a portuguesa responsável pelo apadrinhamento de 200 crianças das favelas de Nairobi.

Engane-se quem acha que Diana só o consegue fazer porque é um género de magnata. Pelo contrário. Diana é uma jovem mulher de 28 anos, oriunda de Amarante e com uma vontade gigante de conhecer o mundo. Depois de terminar a licenciatura em Ciências de Comunicação, juntou todo o dinheiro que conseguiu ganhar a vender livros e a fazer limpezas numa pastelaria e meteu o pé na estrada. Andou pela Europa e pelo Estados Unidos - viagens cujos relatos foi partilhando no blogue “Há ir e Voltar” - até que um projeto de voluntariado a levou ao Quénia. É por lá que está há dois anos e onde, por iniciativa própria, começou a criar uma rede de apadrinhamento de crianças das favelas de Nairobi. O seu blogue pessoal deu nome ao projeto que hoje tem em mãos: assegurar educação a meninos que sem ela dificilmente sairão da pobreza extrema.

Começou por se apaixonar pela simpatia dos habitantes de Kibera, um dos maiores bairros de lata da capital queniana. Foi lá que conheceu “teacher Benta”, uma mulher que todos os dias acolhia 27 crianças num pequeno barracão sem condições, para que os pais pudessem ir trabalhar. Durante semanas viu os petizes comerem arroz com arroz e decidiu apadrinhá-los com comida, pedindo ajuda a amigos em Portugal para criar um rede de donativos. Foi então que teve uma ideia: porque não tentar também construir uma escola? Na altura fez um apelo por email e nas redes sociais a todas as pessoas que quisessem ajudar e conseguiu reunir fundos suficientes para uma escola/orfanato. O “Há Ir Voltar” crescia, tal como a sua vontade de fazer a diferença na vida daquelas famílias. Ao mesmo tempo que construía a escola em Kibera, começou também a trabalhar com a comunidade local de Mathare, uma favela onde se estima que 1 em cada 3 habitantes tenha HIV e que praticamente todos vivam com menos de 1 dólar por dia. Lá, dedicou-se a arranjar “padrinhos” à distância para permitir que as 78 meninas que, mal ou bem, já conseguiam ir à escola, pudessem continuar a ir.

Um erro que podia ter sido o fim de tudo

De volta a Kibera: ingenuamente, Diana construiu a escola em seu nome, algo que se revelou um erro. Um dia foi chamada pela polícia que a obrigou a ceder-lhes o edifício recém-construído. Depois de “muita discussão e de muitas lágrimas”, não teve outra hipótese. As salas de aula iriam ser alugadas por Benta a famílias da favela. Pela primeira vez teve medo e passou noites sem dormir. “Foram os meus dias mais difíceis no Quénia. Todo o trabalho de um ano, todo o dinheiro que tínhamos conseguido angariar, tinha sido em vão. Pensei ir embora. Mas, aqueles 80 meninos que Benta estava a mandar embora ficaram sem escola. Eu não podia simplesmente fazer as minhas malas e ir embora como se nada estivesse a acontecer. Voltei a Kibera e comecei a colocar os meninos noutras escolas. A escola que construímos no ano passado já não é uma escola - foi uma ferramenta de educação que tínhamos criado e que falhou. Mas estas crianças ainda precisam da nossa ajuda, agora mais do que nunca.”

Além da rede de apadrinhamentos – que garante, por exemplo, alimentação e roupa a 200 crianças atualmente - focou-se então em Mathare e nas 78 meninas da escola Angel Girls, cujas professoras locais há mais de dez anos fazem todos os esforços para lhes dar educação. Mas a escola existente não é bem uma escola: são três salas de 4m2, onde chegam as estar 40 meninas dos 3 aos 12 anos. Com paredes de chapa, bancos partidos, chão de terra batida, ardósias esburacadas e telhado que deixa passar água quando chove (espreitem o vídeo em baixo). Sem casa-de-banho, só um esgoto a céu aberto. E Diana quer que estas crianças tenham direito a mais. Em vez de construir uma escola sua, desta vez Diana está a fazer uma recolha de fundos para a reabilitação do projeto já existente. Com a colaboração dos próprios pais das crianças, que terão de contribui com €1,50 para a construção. Um valor simbólico, é certo, mas que para a realidade da favelas é um esforço. Esforço esse que deverá contribuir para os tornar num género de guardiões do edifício.

Uma escola, uma refeição por dia, uma possibilidade de futuro

Com apenas 20 mil euros será possível transformar aquelas três salas em uma escola de dois andares, com janelas, salas onde se consegue respirar, materiais de estudo e casas de banho. Lá, será possível albergar inicialmente 78 meninas (o desejo é chegarem às 130) e garantir-lhes refeições quentes diárias, provavelmente as únicas que muitas daquelas crianças comerão por dia. E porquê meninas? Porque nas famílias mais carenciadas, culturalmente são sempre elas as últimas a terem direito a ir à escola.

Na página da angariação de fundos, Diana e as outras três voluntárias portuguesas que se juntaram a ela para dar vida ao projeto explicam tudo e partilham os dados para transferência de donativos. Porquê no Quénia e não em Portugal? “Porque é aqui que quero estar”, explica Diana no seu blogue. “Sei que em Portugal há muita gente a passar necessidades, a passar fome. Que não tem uma casa, mas não podemos sequer comparar ao Quénia. O que importa é dar a mão a pessoas totalmente desamparadas. Adultos ou crianças que têm direito a viver e não a sobreviver com menos de 0,70 cêntimos por dia. Que morrem com doenças que são curadas com menos de cinco euros”.

Quando alguém ajuda quem realmente precisa, a pergunta “onde?” é a que menos importa. Uma vénia à Diana que, embora dedique a vida dela aos outros, a única coisa que nos pede a todos é que ajudemos com aquilo que pudermos dar. E dez euros que sejam já podem fazer a diferença.