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Expresso

Mulheres “escuras e encantadoras” quebram tabus

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FOTO PAX JONES EXPERIENCE

Lembro-me de há uns anos ir num autocarro no sul da Índia, quando uma jovem mulher se sentou ao meu lado, sorriu como quem quer quebrar o gelo e disse a seguinte frase: “Que pele tão bonita, quem me dera ter essa cor”. Na altura olhei para aquela mulher linda ao meu lado e fiquei sem saber o que dizer. Eu parecia um pequeno fantasma pálido e cheio de olheiras, com ar de quem precisa de uns bons dias de praia. Já ela tinha uma tez bem tostada do sol, num tom dourado de quem está no fim do verão. Quando lhe disse que achava a dela bem mais bonita do que a minha, ela soltou um risinho e abanou a cabeça: “Não sabes o que dizes”. Quando lhe perguntei porquê, a resposta era simples e por mais que eu a tentasse demover da ideia, foi impossível: “Quanto mais branca for a pele, mais bonitas e bem sucedidas são as mulheres.”

Questões culturais, é certo, mas durante muito tempo dei por mim a pensar em todas as mulheres que encontrei mundo fora, principalmente em países do Médio Oriente e Ásia, que cobriam a pele dos braços para evitar o sol, independentemente do calor que fizesse. Das várias vezes que perguntei porque o faziam, quase sempre a resposta foi ao encontro daquela que me foi dada na Índia por aquela mulher. Quanto mais claras, mais puras estas mulheres são consideradas. Crescem a acreditar piamente que serão melhor aceites na sociedade se forem mais claras. Que serão mais bem sucedidas, mais desejáveis enquanto mulheres e até capazes de atrair melhores maridos.

Ensinamentos passados de mãe para filha que duram até hoje e que na realidade ainda parecem ter fundamento, porque a cor da pele continua a ter um papel importante naquelas sociedades. E no rumo que a vida de uma mulher pode levar. Não é por isso de estranhar que países como a Índia ou o Paquistão sejam consumidores ávidos de cremes que prometem uma pele mais clara ao fim de X aplicações. Foi precisamente numa paródia ao nome de um dos cremes mais badalados do mercado – o “Fair & Lovely” (“Clara e Encantadora”) - que surgiu há umas semanas um movimento online que está a dar que falar e a gerar um discussão bem interessante sobre a pressão e a discriminação feita às mulheres, relacionada com a cor da pele.

#Unfairandlovely é a hashtag do momento, mas tudo começou com o projeto Pax Jones Experience – Unfair & Lovely, uma experiência fotográfica feita por três estudantes do Texas. Uma delas – afro-americana - fotografou, outras duas – irmãs nascidas numa família natural do Bangladesh - serviram de modelos para a sessão. Com atitudes provocadoras e maquilhagens arrojadas, mostraram que o facto de não terem a tão ansiada pele clara não as torna menos mulheres.

Muita gente achou o mesmo e a série de fotografias tornou-se viral numa questão de dias. Nos últimos dias, as redes sociais começaram a encher-se de imagens com a hashtag #unfairandlovely e aquilo que começou por ser um movimento dedicado especialmente às mulheres asiáticas galgou continentes e gerou um movimento que conta com a participação de um mulheres – e alguns homens também, que relembram que a discriminação não as afeta apenas a elas - um pouco por todo o mundo. Movimento esse que tem funcionado como uma ode às origens de cada pessoa enquanto ser individual, à aceitação da imagem corporal e um apelo ao fim de ideias pré-concebidas que em muito contribuem para a falta de valorização e dignidade por parte da sociedade de tantas pessoas mundo fora.

As autoras das fotos iniciais criaram entretanto um perfil de Instagram que pretende dar palco às imagens que lhes começaram a chegar, acompanhadas por legendas que contam a visão pessoal de outras mulheres que já se sentiram discriminadas por causa do seu tom de pele. Mas se fizerem uma pesquisa por #unfairandlovely vão encontrar muitas mais. Partilho convosco alguns exemplos que me prenderam o olhar.