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Expresso

O peso do mundo nos ombros de uma miúda

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d.r.

Ontem muito se disse a palavra “mulher”. Um pouco por todo o lado, desde jornais a redes sociais, se falou da importância do Dia Internacional da Mulher, se escreveram factos, se partilharam poemas, frases e fotografias. Mas hoje a “mulher” – e tudo o que engloba a discriminação ainda latente quanto ao sexo feminino - voltou a ficar para segundo plano. Contudo, há pessoas que não se lembram de assinalar o dia de ontem apenas a 8 de março. Há pessoas, homens e mulheres, que dedicam boa parte do seu tempo e energia a agitar consciências e a dar voz a quem ainda precisa de apoio. Malala Yousafzai é uma dessas vozes.

Ontem tive a oportunidade ver o documentário “He Named me Malala” (transmitido na Fox Life e no National Geographic no passado domingo) e recomendo-vos a todos que o vejam e que partilhem com as pessoas que ontem se lembraram de assinalar a importância do Dia da Mulher. Malala foi distinguida com um Prémio Sakharov, a revista Time considerou-a uma das 100 figuras mais influentes do mundo e é pessoa mais jovem de sempre a ter recebido um Prémio Nobel. Malala Yousafzai é hoje uma ativista reconhecida internacionalmente a aplaudida de pé, todos os sabemos. Vozes poderosas de todo o mundo calam-se para ouvir o que ela tem a dizer. Mas quem é esta adolescente paquistanesa, para lá das causas que defende?

A resposta a esta pergunta é respondida neste filme de Davis Guggenheim (o mesmo realizador de “Uma Verdade Inconveniente”). Estamos tão habituados a pensar em Malala como uma voz forte na defesa dos direitos humanos, principalmente no que toca a meninas e mulheres, que nos esquecemos que por trás está apenas uma miúda. Uma miúda que teve um frente a frente com morte aos 15 anos. Uma miúda que carrega o trauma de uma tentativa de homicídio. Que foi baleada na cabeça por um grupo terrorista por ter ousado sugerir que as meninas do seu país deveriam poder ir à escola.

d.r.

Malala: a miúda que tem medo de cães e que gosta de redes sociais

Neste documentário encontramos uma Malala que tem medo de cães, que anda às turras com os irmãos, que gosta de redes sociais, que tem medo que as amigas da escola não gostem dela, que tenta contrariar a preguiça de fazer os trabalhos de casa, que acha Roger Federer um tipo bonito, mas que cora e se perde em risinhos quando fala sobre namorados. Ao mesmo tempo, é uma adolescente que sabe que pode ser morta se entrar no seu país e que ainda chora quando pensa nas noites em que não conseguia dormir e que se levantava para verificar as portas e janelas de casa, porque o nome do seu pai tinha sido apontado pelos Talibã como um alvo a abater.

Todos batemos palmas quando ouvimos Malala a erguer a sua voz de miúda para dizer as verdades que muitos de nós gostaríamos de dizer a alguns dos líderes mundiais. Mas esquecemo-nos que é esta miúda, agora com 19 anos, que carrega nos ombros as dores das pessoas que conhece mundo em cenários de sofrimento e que lhe pedem ajuda em tom de desespero. Desde o os pais das meninas raptadas pelo Boko Haram, aos sírios que vivem em campos de refugiados sem poderem assegurar futuro às suas crianças, às meninas africanas que não têm acesso a educação. É ela que carrega consigo a responsabilidade de fazer pedidos e perguntas inconvenientes em praça pública a líderes políticos, exigindo ação e mudança. Alguns deles, ditadores. Pedidos que muitos adultos - os que as deveriam fazer – não ousam fazer. Por falta de coragem, por razões diplomáticas, por interesses políticos e económicos.

“Eu sou uma miúda comum. Os meus pais é que não são comuns”

Hoje a sua vida é dedicada aos outros, tal como já era aos 15 anos quando arriscava a vida para que as suas amigas pudessem voltar à escola. Mas pelo caminho muita gente acusa-a de ser apenas um fantoche nas mãos do pai – com tem tem uma relação de cumplicidade inquebrável -, não acreditando que uma figura feminina de tão tenra idade possa ter uma capacidade de análise tão grande. Uma subtileza, é certo, mas sintomática daquilo que muita gente ainda acha quando se associam as palavras “mulher” e “liderança”.

Entre visitas a cenários de guerra e discursos nas Nações Unidas, Malala regressa sempre a casa com uma certeza na cabeça: “Eu continuo a ser uma miúda comum do Vale de Swat. Os meus pais é que não são uns pais comuns”. Se o fossem, Malala hoje em dia estaria a viver um casamento arranjado e seria provavelmente mãe de dois ou três bebés. A sua educação teria ficado para trás e sua vontade e voz silenciadas.

d.r

Este documentário é dedicado a todas as mulheres silenciadas mundo fora. E à hipocrisia da inação daquilo que chamamos de comunidade internacional, que continua a precisar que seja uma adolescente a exigir mudança.

Espreitem o trailer em baixo e vejam o documentário quando tiverem tempo. Vale bem a pena.