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Faz sentido um Dia Internacional da Mulher?

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Hoje não se celebra o Dia Internacional da Mulher. Hoje assinala-se este dia. No dia em que for possível simplesmente celebrar, ele deixa de fazer sentido. E quando ele deixar de fazer sentido é sinal de que estamos a viver num mundo muito mais justo e equilibrado, onde os seres humanos são celebrados de igual forma todos os dias. Onde uma pessoa não é menor, ou menosprezável, simplesmente por ter nascido com determinado género. Neste caso, o feminino.

Ainda vamos esperar 70 anos para elas serem tratadas como eles, lia-se ontem no Expresso, num texto baseado nos dados mais recentes da Organização Internacional do Trabalho. Por cá, a diferença do salário médio entre um homem uma mulher ainda ronda os 20%, sem explicação clara para tal. Além destes – que tanta gente diz serem um capricho das feministas –, os números que comprovam o que disse anteriormente são tantos e tão graves que sei vários de cabeça. Por exemplo, no ano passado morreram 42 mulheres em contexto de violência doméstica em Portugal (espreitem este fabuloso trabalho da Visão sobre isto). No mundo inteiro, quase 14 milhões de crianças são obrigadas a casar todos os anos antes de atingirem a maioridade. Mais 80% destas crianças são meninas. Dados das Nações Unidas revelaram também recentemente que pelo menos 200 milhões de meninas, raparigas e mulheres foram vítimas de mutilação genital.

Falar dos problemas das mulheres não é atacar os homens

Mas muitas vezes este números parecem não ser suficientes quando tento explicar por que é que em 2016 ainda é importante usarmos a palavra feminismo, sejamos nós mulheres ou homens. Ainda ontem, em resposta ao texto que escrevi sobre o facto de se achar que uma mulher que viaja sozinha de alguma forma está “a pedi-las”, um leitor me acusava de estar mais uma vez a “atacar os homens”. Ou seja, o facto de duas mulheres terem sido brutalmente assassinadas durante uma viagem e de o mundo ter questionado que roupa elas levavam vestida passou para segundo plano. Também há uns tempos, quando escrevia sobre os números de violência sexual no mundo, sendo as mulheres as suas maiores vítimas, outro leitor me chamava “feminazi” e dizia que só sabia defender as “coitadinhas” das mulheres e pôr os homens no patamar do violador. Mais uma vez, os números hediondos de mulheres violadas mundo fora, incluindo em Portugal, passaram para segundo plano.

O que muitos dos leitores que deixam regularmente comentários deste género parecem não perceber, é que o facto de falarmos de atos abusivos contra as mulheres (num espaço que foi feito para se falar sobre elas) não é atacar os homens em geral, é simplesmente falar de factos reais. E o que a realidade mostra através de inúmeros relatórios e levantamentos é que os homens permanecem como os seus maiores agressores. O que não significa que todos os homens sejam potenciais agressores, parece-me óbvio.

Falar sobre isto abertamente não é tornar a imagem masculina num bicho papão, num animal grotesco que não sabe controlar impulsos, que não consegue perceber o significado das palavras respeito e igualdade. Há muitas mulheres que também não as percebem, nem as praticam. É sim agitar consciências para a necessidade de mudança. Para o caminho que temos de fazer em conjunto (!) para chegarmos a um mundo menos impar. As mulheres não querem ser melhores que os homens. Nem certamente querem ser iguais a eles. Mas querem igualdade de tratamento, direitos e oportunidades. Há algum mal nisso?

É por estas e por outras que o Dia da Mulher ainda faz sentido

Quanto ao Dia Internacional da Mulher, repito intencionalmente o que já por aqui escrevi no ano passado. Num mundo ideal ele não seria necessário, mas estamos longe de viver num mundo ideal. Enquanto existirem mulheres que são questionadas sobre a roupa que estavam a vestir após sofrerem um ataque brutal que lhes ceifa a vida, este dia faz sentido. Tal como enquanto ainda existirem Sakinehs que podem ser apedrejadas até à morte por supostos adultérios confessados sob tortura. Ou enquanto existirem Feng Jianmeis a quem arrancam um filho do ventre aos sete meses de gravidez por não ter dinheiro para pagar uma multa. Ou estudantes que são violadas até à morte em autocarros da Índia e cujos violadores continuam a achar que tiveram motivos para o fazer. Ou casamentos forçados de adolescentes a quem não é permitido o amor, ou excisões a meninas como forma de purificação ou tráfico de mulheres para redes de prostituição, ou milhares de mulheres mortas anualmente em supostos crimes de honra e demais atrocidades. E também enquanto existirem estrelas de Hollywood a serem ameaçadas de divulgação de fotos suas privadas em redes sociais como represália a discursos públicos sobre os direitos das mulheres, ou enquanto mulheres sejam discriminadas em contexto laboral, ora com salários médios mais baixos do que os dos homens, ora com discriminação relacionada à questão da maternidade.

Infelizmente esta lista podia ser mais extensa. Tão, mas tão mais extensa. O que é assustador. Não estou com isto a colocar as mulheres no eterno papel de vítimas. Também há muitos homens discriminados mundo fora, todos os dias. Mas no que toca às mulheres a escala é incontestavelmente outra. Falo de questões reais e concretas relacionadas especificamente com o sexo feminino, que só não vê quem não quer. E que não podem ser eternamente chutadas para o lado com respostas como "são questões culturais" ou “sempre foi assim”.

Até hoje já foi percorrido um longo caminho no que diz respeito à discriminação de género. Mas ainda falta percorrer outro caminho tão, ou mais longo ainda. Felizmente, por cá já vamos tendo cada vez mais voz para falar, gritar ao mundo o que se passa. Haja coragem e, em muitos casos, meios e apoio a tempo e horas. Principalmente o das autoridades competentes. Mas ainda há muitas mulheres mundo fora às quais não é sequer permitida a palavra 'não'. Se por nós ainda faz sentido, por elas é essencial que este dia continue a existir. Quem me dera que não fizesse.