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Expresso

Sim, eu tenho medo de viajar sozinha. Mas vou

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"Então mas não tens medo de ir sozinha?” Quando uma mulher decide viajar sozinha, além da mochila, é também o peso desta pergunta que carrega nos ombros. Sozinha, ou acompanhada por outras mulheres, fi-lo muitas vezes ao longo da minha vida e de todas as vezes ouvi esta pergunta repetidamente antes de embarcar. Medo? Claro que sim. Mas estar dependente de presença de outrem para garantir a minha segurança enquanto ser humano, e satisfazer a vontade de ver o mundo, simplesmente nunca me fez sentido.

Quando se é mulher, a sombra da possibilidade de sermos assediadas pelo caminho, roubadas, eventualmente agredidas, violadas ou até mortas está presente na cabeça de quem se mete à estrada. Muitas vezes até de forma inconsciente, mas a sombra, essa está lá. Por mais descontraídas que sejamos, por mais ou menos civilizado que seja o destino. Mas isso não quer dizer que deixemos de ir. Não ir seria vivermos numa redoma, seria resignarmo-nos. E resignarmo-nos seria desistir de algo que deveria ser simples para qualquer pessoa, independentemente do género. Seria deixarmos de acreditar que existem pessoas boas mundo fora, e existem tantas que se cruzam connosco quando viajamos sozinhas. Seria ceder ao peso daquilo que poucos gostam de admitir, mas que todos sabemos ser verdade: o mundo continua a ser um lugar mais perigoso para as mulheres do que para os homens.

Marina Menegazzo e Maria José Coni eram duas jovens mulheres argentinas que se fizeram à estrada no início deste ano rumo ao Equador. Iam de férias, cheias de curiosidade, de vontade de conhecer o país, a sua cultura, as suas gentes. Foram dadas como desaparecidas no final de fevereiro. O mundo assistiu com horror ao aparecimento macabro dos corpos, com marcas da violência extrema. Na semana passada, os homens que as assassinaram confessaram o crime. Resumindo: duas mulheres foram de férias. Um grupo de homens achou-as ‘apetecíveis’ e fez-lhes uma emboscada para as tentar violar. Elas, como qualquer pessoa faria, resistiram. E foram mortas à paulada e à facada por isso.

“O que faziam duas mulheres a viajarem sozinhas?”

Marina Menegazzo e Maria José Coni

Marina Menegazzo e Maria José Coni

Foi no Equador, um país onde como todos sabemos a violência contra as mulheres é comum. Mas podia ter sido em Lisboa, onde ainda todos nos lembramos, por exemplo, do relato da jovem italiana que foi sequestrada num quarto de hotel junto à baixa da cidade há uns anos, e violada dia após dia. Ou em Nova Iorque, em Paris, em Bombaim, em Banguecoque, no Rio de Janeiro, na Cidade do Cabo. A lista de possíveis cenários para um ataque a uma mulher sozinha – seja a viajar ou não - é infindável. Mais uma vez, porque a realidade é esta: o mundo continua a ser um lugar mais perigoso para as mulheres do que para os homens.

Quando olhamos para histórias hediondas como a do assassinato destas argentinas a única coisa que deveríamos ver era o crime e as razões que levam a que tal aconteça. Contudo, quando falamos de razões erguem-se comentários que todos deveríamos considerar inaceitáveis, até porque se fossem dois homens estes bem provavelmente não seriam feitos : “O que faziam duas mulheres sozinhas no Equador?”. “Que roupas tinham vestidas quando foram abordadas pelos homens?”. “Viajavam sozinhas, estavam à espera do quê?”.

É curioso que se continue a achar que elas viajavam “sozinhas”, quando eram duas. Elas viajavam acompanhadas uma pela outra. Mas o que este pensamento implica é que mulheres que viajam juntas, sem uma presença masculina, estão sozinhas. E estando ‘sozinhas’, são potenciais alvos para situações abusivas que não aconteceriam tão facilmente na presença de um homem. Percebem quão nefasto isto é?

Tudo isto até faria muito sentido ao falarmos de zonas conflituosas. Aliás, é senso comum evitarmos locais e situações onde o perigo é latente, sejamos nós homens ou mulheres. Cuidado e bom senso todos temos de ter. Mas continuarmos a dizer às mulheres que elas devem evitar viajar sem um homem – isto não vos faz lembrar a Arábia Saudita, por exemplo? - para se protegerem de eventuais perigos, é perpetuar a ideia de que o problema está nelas. De que caso algo de mal aconteça, elas têm parte da culpa. Porque foram, sendo mulheres.

Em vez de perguntarmos “o que estavam elas a fazer sozinhas no Equador?”, deveríamos começar antes a perguntar “o que é que podemos fazer para mudar o comportamento dos homens em relação às mulheres?” mundo fora. O problema não reside numa mulher que viaja sozinha, o problema ainda está na forma como uma boa parte do mundo – arriscaria mesmo a dizer, dos homens – continua a olhar para a figura feminina. A diminuí-la, a desrespeitá-la, a considerá-la um pedaço de carne, um alvo fácil. Foi isso que aconteceu com estas mulheres argentinas. A culpa, não convém esquecer, é exclusivamente de quem comete um crime tão bárbaro.

Deixo-vos em baixo a carta escrita pela estudante paraguaia, Guadalupe Acosta, que se tornou viral nos últimos dias. Uma homenagem a todas as mulheres que não se resignam.

“Ontem mataram-me

Neguei deixar que me tocassem e com um pau rebentaram-me o crânio. Deram-me uma facada e deixaram-me sangrar até morrer. Como lixo, colocaram-me num saco de plástico preto, enrolada com fita adesiva, e fui largada numa praia, onde horas mais tarde me encontraram.

Mas, pior do que a morte, foi a humilhação que veio depois.

A partir do momento em que viram o meu corpo inerte, ninguém perguntou onde estava o filho da puta que acabou com os meus sonhos, as minhas esperanças, a minha vida. Não, preferiram começar a fazer-me perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não se pode defender.

Que roupa estava a usar? Por que é que estava sozinha? Por que é que uma mulher quer viajar sem companhia? Foi-se meter num bairro perigoso, estava à espera de quê?

Criticaram os meus pais, por me darem asas, por deixarem que eu fosse independente, como qualquer ser humano. Disseram-lhes que com certeza estaríamos drogadas e fomos à procura, que alguma coisa fizemos, que deviam ter-nos vigiado.

E só morta eu entendi que para o mundo eu não sou igual a um homem. Que morrer foi culpa minha, que sempre vai ser. Porque se o título dissesse “foram mortos dois jovens viajantes” as pessoas estariam a dar as suas condolências e, com o seu discurso falso e hipócrita, com uma falsa moral, pediriam pena máxima para os assassinos.

Mas, como sou mulher, é minimizado. Torna-se menos grave porque, claro, eu estava a pedi-las. Fazia o que eu queria, encontrei o que merecia por não ser submissa, por não querer ficar em casa, por investir o meu próprio dinheiro nos meus sonhos. Por isso e por muito mais, condenaram-me.

E sofri, porque já não estou aqui. Mas tu estás. E és mulher. E tens que aguentar que continuem a esfregar-te na cara o mesmo discurso de “fazer-se respeitar”, de que a culpa é tua quando gritam e querem pegar/lamber/chupar os teus genitais na rua por usares uns calções com 40 graus de calor, de que se viajas sozinha és uma “louca” e muito provavelmente se aconteceu alguma coisa, se espezinharam os teus direitos, tu é que te puseste a jeito.

Peço-te que por mim e por todas as mulheres que foram caladas, silenciadas e que tiveram as suas vidas e os seus sonhos destruídos, levanta a voz. Vamos combater, eu ao teu lado, em espírito, e prometo que um dia seremos tantas que não haverá quantidade de sacos de plástico suficiente para nos calar.”

Guadalupe Acosta