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Expresso

Universidades americanas: verdadeiras “zonas de caça” à mulher

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“Até que te aconteça a ti, não sabes como é que é”. Na noite dos Óscares esta frase cantada repetidamente por Lady Gaga, acompanhada por cerca de 50 vítimas de abuso sexual, tornou-se num dos momentos altos do evento. Tal como prometido quando escrevi sobre as mulheres que marcaram esta edição dos Óscares, hoje venho contar-vos um bocadinho mais sobre o filme por trás desta música que tem emocionado tanta gente mundo fora.

“Till it Happens to You” faz parte da banda sonora do documentário “The Hunting Ground”, produzido por Amy Ziering e realizado por Kirby Dick. Já não é a primeira vez que a dupla se debruça no tema da violência sexual, tendo sido amplamente aplaudida pelo documentário “The Invisible War”, onde expunha os abusos sofridos pelas mulheres no exército norte-americano. Neste último trabalho o foco vai para os campus universitários.

Os números são assustadores: uma em cada cinco mulheres é vítima de abuso sexual nas universidades norte-americanas, mas mesmo assim apenas uma fração destes casos chega às autoridades e muito raramente alguém é punido por tal crime. Neste documentário, a dupla revela um sistema endémico de encobrimentos institucionais baseados em jogos de poder, racionalizações e menorização dos crimes e vitimização dos agressores, todos eles fatores que criam condições confortáveis para que os predadores continuem a existir em regime de impunidade.

Palavra das vítimas vs O poder do dinheiro

A palavra “predadores” não é usada ao acaso: para as vítimas, as universidades são verdadeiros “campos de caça”, onde as mulheres são as maiores “presas” de predadores protegidos pela influência do dinheiro e da imagem íntegra que as instituições querem passar à sociedade. Palavras que não são bonitas, mas que transmitem o sentimento geral de quem já se viu enredado pelas teias desta verdadeira selva, onde as denúncias das vítimas - que conseguem ter coragem de o fazer - raramente são levadas a sério. Muitas delas são mesmo silenciadas.

O ponto de partida deste documentário são Annie E. Clark e Andrea Pinto, duas estudantes da Universidade de Carolina do Norte que foram abusadas sexualmente e rejeitadas pela direção da instituição, que abafou o escândalo. Em conjunto, as alunas processaram a faculdade e tornaram-se em nomes fortes no que toca ao ativismo conta a violência sexual nas instituições de ensino norte-americanas.

Infelizmente a realidade espelhada neste documentário é mais transversal do que muitos de nós gostaríamos de admitir. Vê-lo e perceber quão fácil é silenciar e descredibilizar alguém que passou por uma situação tão traumática quanto uma violação é essencial. Quem dá a cara neste documentário arrisca muito – a sua integridade, a família, as oportunidades a longo prazo por ter ido contar “o sistema”, a privacidade, a dignidade. Mas também inspira, porque a impunidade e o silêncio não podem continuar a ser as palavras de ordem em casos tão graves quanto estes. Sejam as vítimas mulheres ou homens.

O tema não é fácil – tal como o do filme “Spotlight” não é – mas definitivamente esta é a minha sugestão cinematográfica para o próximo fim de semana. Inquietante, mas necessário.

Espreite o trailer aqui: