Siga-nos

Perfil

Expresso

Três mulheres que marcaram a noite dos Óscares

  • 333

Nas últimas 24 horas muito se falou sobre os Óscares 2016. Dos nomes premiados aos melhores e piores vestidos da festa, o escrutínio do costume está feito. Aqui pela A Vida de Saltos Altos não queria deixar passar o momento sem realçar três mulheres que a meu ver marcaram a noite: Jenny Beavan, Lady Gaga e Sharmeen Obaid Chinoy.

Vamos então por partes. Jenny Beavan:
No espaço de duas semanas recebeu dois desejados prémios pelo seu trabalho enquanto responsável pelos figurinos do filme Mad Max: um Bafta e o Óscar. Se na primeira cerimónia a reação do público à sua indumentária – pouco dada a vestidos de gala - não foi a melhor, no domingo foi verdadeiramente desprezível. “Quem diria que uma das maiores designers de figurinos do mundo cinematográfico viria a uma premiação mundial vestida de sem-abrigo”, brincou Stephen Fry na entrega dos Bafta, provavelmente a piada mais deselegante da última entrega destes prémios. Os risos de escárnio da audiência mostraram quão coniventes estavam os restantes artistas.

No domingo, Beavan voltou a ser galardoada e mais uma vez o facto de optar por umas calças de ganga, um casaco de cabedal com uma caveira de brilhantes nas costas, um lenço ao pescoço e sapatos rasos provocou desconforto. Numa sala cheia de gente que está treinada para sorrir e aplaudir seja ao que for, foram muitos os que não a aplaudiram. Praticamente todos miraram-na de alto a baixo como se o facto de não levar um vestido de gala a transformasse automaticamente num ser estranho menos merecedor do Óscar. Em alguns casos – como a figura ridícula de Iñarritu, de braços cruzados – olharam-na mesmo com uma expressão de repulsa, como se fosse uma atriz falhada durante uma audição para um papel principal.

Sorridente e confiante, Jenny Beavan subiu ao palco para um discurso que primou pela apologia à importância de sermos mais gentis uns com os outros senão caminharemos para um mundo apocalíptico como o de Mad Max. Para bom entendedor, meia palavra basta.

A ela, um aplauso.

Lady Gaga
Depois das participações especiais no Super Bowl e nos Grammys, a cantora pode não ter ganho o Óscar para melhor canção, mas definitivamente arrebatou fãs e menos fãs um pouco por todo o mundo ao interpretar “Til It Happens To You”. Uma canção que faz parte do imperdível documentário The Hunting Ground, que se foca no flagelo da violência sexual nos campus universitários dos Estados Unidos (falaremos sobre ele ainda esta semana).

Tendo sido ela própria vítima de abusos sexuais no passado, Lady Gaga fez-se acompanhar no final da sua atuação por uma série de outras vítimas. Com o palco cheio de mulheres que nos seus braços escreveram coisas como “sobrevivente”, “inquebrável” e “a culpa não é tua”, este foi definitivamente um dos momentos mais emocionantes da noite. Com uma mensagem clara de alerta para a importância de se trazer o debate sobre a violência sexual para cima da mesa.

A ela um aplauso.

Sharmeen Obaid Chinoy
É a primeira pessoa natural do Paquistão a conseguir arrecadar dois Óscares e isso tem dado que falar. Contudo, a mim parece-me mesmo de enaltecer a sua coragem para abordar temas como aquele que foca no documentário que lhe valeu esta última distinção: os crimes de honra que todos os anos matam mais de mil mulheres no Paquistão.

Já por aqui falámos do trabalho A Girl in The River – The Price Of Forgiveness, mas nunca é demais relembrar este tema. Como ponto de partida, a realizadora decidiu abordar os crimes de honra no Paquistão não através das mortes, mas sim através das sobreviventes. Neste caso Saba Qiaser, uma jovem que decidiu casar sem o consentimento familiar e que acabou a ser alvejada na cara e a ser atirada a um rio pelo próprio pai.

O prémio atribuído agora a Sharmeen poderá ser uma ajuda essencial no que toca à alteração da atual lei que assegura que o perdão da família legitime os crime de honra. Se esta possibilidade for retirada e os criminosos começarem a ser punidos pelos seus atos, abre-se certamente o caminho para uma mudança de mentalidades no que toca à defesa da honra da família. O pedido já foi levado ao Senado, que aprovou a alteração, mas a nova lei acabou por chumbar no Parlamento no final do ano passado. A pressão causada pela mediatização do tema a nível internacional poderá ser decisiva.

A ela um aplauso.