Siga-nos

Perfil

Expresso

Vai ter ‘shortinho’, sim!

  • 333

Números a reter: uma em cada cinco mulheres brasileiras já foi espancada pelo marido, companheiro, namorado ou ex. Dados oficiais recentes revelavam que os casos de abuso sexual subiram 19,3%, atingindo 50,6 mil pessoas – ou seja, quase seis denúncias a cada hora. A violência contra as mulheres é uma realidade que nos remete praticamente para os primórdios da nossa existência, galgando séculos e civilizações. As mulheres são um alvo fácil e hoje isso ainda não é diferente. O que realmente parece estar a mudar é a maior consciência para algo que simplesmente não pode continuar a ser perpetuado. E que não pode depender da vontade dos homens para ser denunciado ou travado: são, acima de tudo, as mulheres que têm de tentar pôr fim a este ciclo.

Nós, mulheres adultas, muitas vezes ainda continuamos a silenciar a nossa indignação perante tais abusos – tantas vezes feitos de forma subtil e na intimidade do lar. Por hábito, por vergonha, por medo, por falta de noção, os motivos são mais que muitos. Mas é bastante curioso ver que as gerações mais novas começam a querer quebrar este silêncio. No Brasil, a última demonstração desta mudança de comportamento surge pela mão e voz de alunas de escola secundária, através da petição “Vai ter shortinho, sim”. Podíamos desvalorizar e achar simplesmente que isto não passa de um capricho de meia dúzia de adolescentes que não têm mais nada que fazer do que querer usar calções na escola em dias de calor. Mas toda esta polémica - que já é apoiada por mais de vinte mil pessoas que assinaram a petição em causa - dá que pensar e merece a nossa atenção.

O problema? Os rapazes distraem-se com os shortinhos...

Um grupo de miúdas de uma escola de Porto Alegre cansou-se das repreensões de professores e coordenadores por usarem calções curtinhos. Algumas passaram pela humilhação de serem expulsas das aulas por causa da sua roupa, outras foram obrigadas a sair da escola e a ir trocar de calções a casa. E porquê? Porque os tais “shortinhos” chamam a atenção dos rapazes. E reduzem-lhes a atenção nas aulas.

Regras de vestuário que se regem por tais argumentos não são mais do que um perpetuar da objetificação e sexualização do corpo feminino, neste caso de adolescentes. Que sim, têm vidas sexuais ativas cada vez mais cedo. Mas simplesmente não é isso que está em causa. Humilhar e julgar uma adolescente pela roupas que veste é continuar a responsabilizá-la pelo assédio e abusos a que muitas vezes está sujeita (basta olhar para os números do início do texto). É dizer-lhes que devem ser elas as responsáveis por prevenirem uma tentativa de violação. É dar carta branca a um agressor para achar que uns “shortinhos” ou um decote legitimam um ataque. Voltamos ao cliché do “ela está a pedi-las”, pela mão de quem os deveria estar a ensinar a serem adultos mais íntegros.

Como estas miúdas tão bem escreveram na sua petição, “ao invés de humilhar meninas pelos seus corpos, ensinem os meninos que elas não são objetos sexuais. Ao invés de ensinarem que a minha decência e o meu valor dependem do comprimento do meu short ou do tamanho do meu decote, ensinem aos homens que eu sou a única responsável pela definição da minha decência e do meu valor. Ensinem aos homens o respeito, desconstruam o pensamento de que a roupa de uma mulher decreta se ela é ou não merecedora de respeito”. E concluem: “Recusamos a obedecer a regras que reforçam e perpetuam o machismo, a cultura de estupro e slut shaming”.

Palavras de adolescentes com idades entre os 13 e os 17 anos que servem de lição a muitas de nós, mulheres adultas, que somos tantas vezes as primeiras a perpetuar estes julgamentos de valor. Mesmo sendo constantemente alvo deles.