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“Que sorte, o teu marido ajuda-te em casa.” A sério?

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FOTO © RICK WILKING / REUTERS

Ajuda-te em casa? A sério? Este é um daqueles pensamentos que me deixa doida e, pelos vistos, Melinda Gates partilha da mesma opinião. Estamos em 2016 e frases como estas simplesmente já não deveriam fazer sentido. Frases essas que continuam a ser ditas mulheres com formação, vidas profissionais ativas e independência económica, perpetuando uma ideai que é simplesmente errada: as tarefas domésticas são uma obrigação do sexo feminino.

Culturalmente, em Portugal crescemos com as avós e as mães a tratarem da casa e dos filhos. Ainda me lembro de a minha mãe, por exemplo, me pedir para fazer a cama do meu irmão porque ele era rapaz e eu rapariga. É assim um pouco por todo o mundo, obviamente de forma mais vincada em sociedades patriarcais. Mas nem mesmo quando nos deparamos com números globais sobre o trabalho não pago nos indignamos. Ou seja, dizem os economistas que em média as mulheres passam 4 a 5 horas por dia a realizar trabalho não pago, enquanto que os homens passam menos de metade desse tempo. Em alguns países, é simplesmente nulo.

A expressão “é normal” seria a reposta provável de muitas mulheres mundo fora, incluindo as das gerações mais novas. “Lamento dizer-vos, mas se pensam assim, estão errados. A não ser que a as coisas mudem muito, as mulheres hoje em dia continuam a passar centenas de horas a realizar trabalho não pago simplesmente porque a sociedade assume que é responsabilidade delas”. Palavras de Melinda Gates, que aproveitou a carta anual da Fundação Bill e Melinda Gates para se focar no tema da pobreza em termos de tempo como mais um dos eternos fatores que acentuam a discriminação de género no mundo.

“Trabalho não pago é simplesmente isto: é trabalho, não é uma brincadeira, e a pessoa que o faz não recebe dinheiro por o fazer”. Quando falamos de trabalho não pago falamos de coisas como limpeza da casa, cuidar das crianças, cozinhar, organizar a logística quotidiana familiar. Tarefas que são realizadas nas horas fora do trabalho pago e que muitas vezes transformam os dias de mulheres de todo o mundo em bolas de neve de tarefas sem fim, sem tempo livre para desfrutar. E o tempo livre – ao contrário da pobreza de tempo - faz muita falta à vida de todos nós.

O trabalho não pago e a dependência económica

Melinda Gates dá ainda o exemplo de meninas e mulheres de países subdesenvolvidos que chegam a ter de caminhar vários quilómetros com mais de 40 litros de água às costas ou na cabeça, para poderem limpar a casa. Ou mulheres que têm de acordar antes do sol nascer para partirem troncos de madeira à machadada, fazerem fogueiras em casa e prepararem o pequeno-almoço antes de o marido acordar, senão são consideradas más esposas. Mulheres a quem muitas vezes é vedado o acesso a educação e a carreira profissional, acabando presas à obrigação do trabalho não pago e à consequente dependência do homem.

Melinda Gates não quer com isto obrigar as famílias do mundo a terem listas de tarefas divididas 50/50. Mas pede mais cooperação dentro do seio familiar, mais preocupação na mensagem que passamos na educação das crianças e maior consciência para os efeitos nefastos a longo prazo de alguém que simplesmente não tem tempo para se sentar um bocadinho e, por exemplo, folhear uma revista.

Por outro lado, pede mudança de mentalidades também em relação ao que se pensa dos homens que fazem tarefas domésticas: “O grande objetivo é mudarmos a nossa percepção daquilo que achamos que é o normal. Por exemplo, deixarmos de achar engraçado ou esquisito ver um homem de avental, a apanhar as crianças na escola ou a deixar-lhes uma nota amorosa na caixinha do lanche que ele próprio preparou.”

Para perceberam melhor a mensagem de Melinda e Bill Gates, espreitem aqui a carta anual do casal. Podemos achar que duas horas ou três por dias não são nada de especial, mas se multiplicarmos esse tempo ao longo da vida acabamos por perceber o que está em causa. Tirem dois minutos para ver este pequeno vídeo onde tudo isto é explicado de forma bem simples. Impossível não compreender a mensagem.