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Alejandro Sanz: o exemplo que todos deveríamos seguir

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FOTO © REUTERS PHOTOGRAPHER / REUTER

Nas últimas 24 horas Alejandro Sanz regressou das cinzas e ficou com os holofotes apontados na sua direção. Não pela sua música, mas pela sua atitude, julgo eu, algo inédita durante um concerto no México. Basicamente, o cantor apercebeu-se que na plateia um homem estava a assediar insistentemente uma mulher, torando-se agressivo. A atitude irritou o cantor – não nos deveria irritar a todos? - , que simplesmente parou a sua atuação e decidiu passar uma reprimenda ao agressor. O cantor desceu do palco exaltado, os ânimos aqueceram por breves segundos e o próprio pediu aos seguranças para expulsarem o homem do recinto

Aplaudido efusivamente pelos fãs que assistiam a tudo – muitos deles sem sequer perceberem o que se estava a passar – Sanz esclareceu tudo antes de voltar a tocar: “Peço desculpa por o que aconteceu. Mas não suporto que se maltrate seja quem for, muito menos uma mulher”.

A atitude de Alejandro Sanz é basicamente a atitude que todos nós deveríamos ter quando percebemos que alguém está a ser importunado no seu espaço e intimidade. Um apalpão, seja numa viagem de metro em hora de ponta, seja durante um concerto, simplesmente não é aceitável. Uma tentativa insistente de aproximação, quando a pessoa em causa já deixou claro que não está interessada, também não. São regras básicas do respeito e da interação entre dois seres humanos, mas é uma pena que tanta gente simplesmente não as perceba.

A Vida de Saltos Altos debruça-se sobre o universo feminino e é sobre ele que vou voltar a falar. Sabem quantas mulheres da União Europeia viveram situações de assédio sexual a partir dos 15 anos? À volta de 83 milhões, ou seja, qualquer coisa como mais de 50% da população feminina a residir nos 28 Estados-Membros. O último grande levantamento da UE que aborda a violência sobre as mulheres revela ainda que 29% das cidadãs já foram alvo de avanços físicos indesejados. Lembram-se da jornalista belga apalpada nos seios em direto, por exemplo?

Dados das Nações Unidas demonstram também que, nos últimos 20 anos, uma em cada três mulheres em todo o mundo viveram situações de violência física e/ou sexual. Uma em cada dez raparigas já foram forçada a ter relações sexuais indesejadas. Os parceiros íntimos – maridos, namorados, companheiros - são os principais agressores.

Um dia vi uma mulher a ser espancada e ninguém fez nada

Posto isto, é realmente de aplaudir a atitude de Alejandro Sanz, que em vez de fingir que não via o que estava a acontecer decidiu intervir, mesmo correndo o risco de arruinar o concerto que estava a dar. Intervir é necessário, diria mesmo, essencial. O eterno lema de “entre marido e mulher não se mete a colher” não faz sentido. Quando uma pessoa está a ser desrespeitada, agredida, seja física ou psicologicamente, cabe-nos a todos intervir. Não fazê-lo é compactuar.

Lembro-me de ser miúda e de em plena rua, a meio da tarde, ter assistido a um episódio que me marcou para sempre. Um homem gritava com uma mulher e, repetidamente, batia-lhe na cara. Um dos estalos foi dado com tanta força que a mulher caiu de joelhos e começou a deitar sangue do nariz. Lembro-me de ter desatado aos gritos e de o colega que estava comigo me puxar para trás e dizer para não me aproximar senão também podia apanhar. Incrédula, assisti ao homem a bater naquela mulher e a puxá-la pelo braço à força enquanto homens e mulheres de cafés e lojas simplesmente assistiam, impávidos, sem nada fazerem além de dizer frases como “tenha lá calma”. Calma?

Ainda nem sequer sabia o que era ser mulher, mas corri à esquadra da polícia mais próxima. Na altura não havia telemóveis para chamadas de urgência. Ninguém me levou a sério porque no meio do pânico não percebi por que rua o casal tinha seguido. Voltei para casa e à minha porta havia pinguinhas de sangue caídas no chão. O que aconteceu àquela mulher? Nunca saberei. Mas foi nesse dia – após ter chorado horas pela injustiça de tudo aquilo a que tinha assistido – que percebi que as mulheres eram um alvo fácil. E que seriam poucos os que se atravessariam por uma estranha para a proteger.

Alejandro Sanz – por quem nem sequer nutro grande apreço musical – pelos vistos faz parte desses poucos. Quero acreditar que sim e que os tais “poucos” são cada vez mais.