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Expresso

Não são crimes de honra, são homicídios

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Mais de mil mulheres morrem todos os anos no Paquistão vítimas dos chamados crimes de honra. E este é apenas o número de casos que é reportado, a realidade poderá ser muito, mas mesmo muito maior. No caso de Saba Qaiser, o seu único erro foi amar um homem que não era aceite pela família. Erro esse que, aos olhos do seu pai, merecia a morte como castigo. Saba decidiu casar sem o consentimento paterno e quando deu por si estava a ser alvejada na cara e a ser atirada a um rio. Contra todas as expectativas sobreviveu.

Regra geral as histórias destas vítimas não chegam a ser conhecidas. Mas a de Saba ficará para sempre registada graças a Sharmeen Obaid-Chinoy, uma paquistanesa que está nomeada para os Óscares com o documentário “A Girl in the River: The Price of Forgiveness”.Tinha pensado falar sobre isto apenas após a grande noite da entrega dos prémios, mas ontem cruzei-me com uma belíssima entrevista da realizadora ao The Guardian e achei que não valia a pena esperar para partilhar convosco este fabuloso trabalho. Jornalista de formação e considerada uma das mulheres mais influentes do mundo pela Time, Sharmeen é uma reconhecida ativista dos direitos humanos já com diversos documentários realizados dentro da temática da violência de género.

FOTO YAQOOB SHAHZAD / REUTERS

Como ponto de partida para o seu mais recente filme, a realizadora decidiu abordar os crimes de honra não através das mortes, mas sim através das sobreviventes. Saba Qaiser, de 19 anos, tinha acabado de ser hospitalizada após uma brutal tentativa de homicídio. Num crime consertado, o pai e o tio alvejaram-na na cara com o objetivo de a desfigurarem e depois atiraram o seu corpo a um rio. À jovem mulher valeu-lhe o reflexo de virar a cara quando lhe apontaram a arma e o tiro acabou por não ser mortal. Foi atirada à água ainda com vida e, embora os homens achassem que acabaria por morrer levada pela corrente, Saba conseguiu lutar pela vida e chegou a uma das margens.

“Depois do que ela fez, o que é que ela estava à espera?”, diz a irmã

A sua história deu que falar nos media e foi assim que Sharmeen Obaid-Chinoy chegou a Saba, quando esta ainda recuperava numa cama de hospital. Juntas decidiram que estava na altura de quebrar o silêncio e contar ao mundo como é que este tipo de crimes continuam a ser perpetuados. Um dos problemas que promove a impunidade dos crimes de honra no Paquistão é o facto de a família da vítima poder perdoar o assassino. Sendo que na maioria das vezes o agressor é precisamente um membro da família – pai, irmão, marido - é raríssimo que algum tipo de justiça se faça. As mulheres – mães, irmãs, filhas – não têm voz ativa para pedir que alguém seja punido. Além de que são educadas para acharem normal que tal possa acontecer, algo que se vê neste filme num comentário da própria irmã de Saba: “Depois do que ela fez, o que é que ela estava à espera?”.

Um dos objetivo de Sharmeen Obaid-Chinoy tem sido conseguir que seja feita a devida alteração à atual lei e que o perdão da família deixe de simplesmente legitimar o crime. Se esta possibilidade for retirada e os criminosos começarem a ser punidos pelos seus atos, abre-se certamente o caminho para uma mudança de mentalidades no que toca à defesa da honra da família. O pedido já foi levado ao Senado, que aprovou a alteração, mas a nova lei acabou por chumbar no Parlamento no final do ano passado.

Com a nomeação para os Óscares, este tema voltou a dar que falar e finalmente houve uma reação direta do Governo paquistanês. Numa declaração pública, o primeiro-ministro afirmou que queria que o primeiro visionamento do filme no Paquistão fosse feito na sua residência oficial. Num país onde o trabalho de Sharmeen Obaid-Chinoy continua a ser repudiado por supostamente denegrir a imagem da cultura paquistanesa – com a agravante de ser uma mulher a tocar na ferida -, este é um passo gigante para a aceitação da necessidade de abordar oficialmente uma temática tão fraturante quanto esta.

Quando tiverem umas horas livres em frente ao sofá, espreitem o documentário. Perturbador, mas essencial. Sem esquecermos que a própria Sharmeen Obaid-Chinoy arrisca a vida ao dar voz a estas histórias.