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Expresso

Apalpar uma jornalista em direto é crime?

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Gostava que nos tempos que correm esta pergunta já nem sequer levantasse dúvidas, mas nada como voltarmos uns dias atrás até ao Carnaval de Colónia para percebermos que não é bem assim. Depois dos acontecimentos medonhos do fim de ano naquela cidade, os holofotes estavam virados para ela em mais um cenário de festa. Houve reforço policial, mas mesmo assim os abusos feitos a mulheres voltaram a dar que falar. O número de denúncias quadruplicou, em grande parte pelo despertar de consciências para a importância de denunciar tais atos após o ataque na estação central de Colónia. Se nessa ocasião os agressores agiram sabendo que as imagens das câmaras de vigilância eram praticamente nulas e que os seus atos e identidades dificilmente ficariam registados, já o mesmo não se pode dizer do que aconteceu a uma jornalista belga que foi molestada em enquanto era gravada para a sua estação de televisão.

Sim, isto aconteceu. Deu pouco que falar – arrisco-me a dizer que se os agressores fossem “aparentemente” do norte de África a notícia teria corrido mundo, mas sendo alemães o tema deixou de ser juicy – , contudo é simplesmente inacreditável que tenha tido tais proporções. Qualquer jornalista que já tenha estado frente a uma câmara sabe que isso despoleta a curiosidade alheia e que, volta não volta, aparecem os “engraçadinhos” que adoram fazer macacadas em busca dos seus cinco segundos de fama no que toca a figuras tristes. Infelizmente, uma jornalista ser apalpada no rabo quando está a fazer um direto – já todos vimos isto acontecer em eventos de futebol, certo? – nem sequer nos causa indignação. A tendência é desculparmos os agressores, ora porque estão alcoolizados, ora porque estão exaltados com o resultado do jogo, desculpas essas que simplesmente me dão a volta ao estômago. As reais razões que levam a que estas criaturas que se sintam à vontade para tais abusos, definitivamente mereciam a reflexão de todos nós.

“Voulez-vous coucher avec moi ce soir?”

Mas em Colónia o caso foi mais longe. Esmeralda Labye, repórter da emissora belga RTBF, estava a ser filmada quando três homens decidiram fazer gestos desrespeitosos atrás dela, desde esticarem o dedo do meio como mensagem aos expectadores, como simularem movimentos sexuais com ela enquanto objeto de prazer. Até aí, nada que surpreendesse a jornalista, já habituada a atitudes idiotas do género (por si só é triste que assim seja). Mas descontentes com a falta de efeito na performance profissional de Esmeralda Labye, decidiram esticar mais a corda. Aproximaram-se mais dela e um beijou-lhe o pescoço. Depois puseram-lhe as mãos nos ombros e sussurraram-lhe ao ouvido 'Voulez-vous coucher avec moi ce soir? [Queres dormir comigo esta noite?].

Farta de tal comportamento abusivo, a jornalista preparava-se para terminar rapidamente a transmissão quando um dos homens decidiu apalpar-lhe os seios. O facto de estar a ser filmado e de a sua identidade estar exposta enquanto praticava tal ato abusivo de assédio sexual nem sequer o fez ponderar duas vezes. O que me leva a pensar no que poderia acontecer se estes três homens se cruzassem com esta mulher num sítio onde ninguém os estivesse a ver.

Iam-se divertir imenso a provocar-lhe pânico ao cercarem-na e apalparem-na? Iriam violá-la? Ou esta atitude execrável só acontece porque acham piada ao facto de estarem em frente a uma câmara de televisão? Nunca saberemos, mas uma coisa é certa: isto só ocorre porque aquela profissional era uma mulher. E porque ainda se continua a ver a figura feminina como um alvo fácil, uma presa, um objeto de abusos, ainda inexplicavelmente legitimados seja pela bebedeira, seja pelo êxtase da festa. Ou simplesmente pela falta de respeito.

Não interessa quem é o agressor – ser europeu ou árabe não diminui o crime – o importante é que seja punido. E a sensação de impunidade em casos do género continua a ser demasiado grande.