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Expresso

“Ouviste, querida? Tens umas belas pernas!”

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A tão apregoada ”lei dos piropos” (chamemos-lhe assim, embora o que esteja em causa sejam situações de assédio) deu que falar há uns tempos e ainda hoje me deparo muitas vezes com conversas de pessoas que não percebem porque razão as mulheres se hão de sentir incomodadas com meia dúzia de frases brejeiras ao andarem na rua. Enquanto mulher que simplesmente não quer ter de ouvir comentários de cariz sexual por parte de estranhos, as explicações parecem-me óbvias mas, pelos vistos, continuam a não fazer sentido à maioria dos que nunca tiveram de ouvir um “fodia-te toda” a meio do dia, vindo da boca de alguém que não tem intimidade para tal comentário. E ao longo destes últimos meses, dei por mim a ter de responder a esta questão vezes sem fim: “Mas isso é assim tão comum?”.

Sim, é. Mais do que qualquer mulher desejaria. Um bom exemplo disso é uma foto que se tornou viral no Facebook nas últimas semanas (190 mil likes e quase 100 mil partilhas), feito por uma nova-iorquina que passou de ilustre desconhecida a símbolo da luta contra o assédio em forma de piropo. Na imagem, Christen Brandt surge de parca volumosa, cachecol, collants opacas, botas altas, uma mala a tiracolo e um copo de café na mão. Até aqui nada de estranho, mas a legenda deixa claro o seu motivo de exasperação.

“Isto era o que eu levava vestido hoje de manhã ao sair da estação de metro da 34th Street quando um homem passou por mim e me disse: ‘Porra, que belas pernas’. Quando o ignorei e continuei a andar, ele começou a seguir-me, a tentar aproximar-se, mesmo vendo que me estava a tentar ir embora. E disse-me: ‘Ouviste o que eu disse, querida? Disse-te que tens umas belas pernas. Porra, obrigada!’”. Este é o início do texto de Christen, onde explica porque se sentiu tão incomodada com esta abordagem: “Foi o obrigada que me chamou à atenção. Como se a meia dúzia de centímetros de pele coberta por collants estivessem ali para ele. Dadas como um presente embrulhado em meias castanhas.

Cuja existência serve para ele apreciar ou não”.

Visivelmente farta de comentários do género, esta nova-iorquina pede a toda a gente que se lembre desta sua foto cada vez que pensarem que isto só acontece a quem não tem cuidado com o tamanho da saia que veste ou com os códigos de conduta de determinados sítios ou instituições. “Tinha vestida uma porra de uma parca e umas botas altas. E isso não interessa para nada!”

Christen relembra ainda que este tipo de situações acontecem todos os dias, a toda a hora, a mulheres de todo o mundo. Alvo de ofensas online por parte de alguns homens que mesmo assim não perceberam a mensagem, alerta para o facto de se continuar a achar que são as mulheres que têm de aprender a lidar com isto, em vez de se perceber que o problema está em quem invade a liberdade de outra pessoa ao fazer-lhe comentários que são, no mínimo, inapropriados. E que muita vezes ainda despoletam atitudes como perseguições ou insultos quando uma mulher acelera o passo para se afastar. E por que é que aceleramos o passo? Simples: porque muitas das vezes temos medo. É incontestável que a maioria dos homens são fisicamente mais fortes que as mulheres. E que as situações de agressão após uma devida chamada de atenção são mais comuns do que nós gostaríamos. (quer acreditem quer não)

Podíamos achar que isto acontece apenas na loucura de Nova Iorque, mas dou-vos um exemplo que me aconteceu há umas semanas na pacata Lisboa. Estava eu à saída do ginásio - de fato treino e totalmente desgrenhada, sem banho tomado – quando me cruzei com um homem que me disse a seguinte frase: “Ai boneca, tirava-te as roupinhas, tirava”. Volto a frisar: estava de fato de treino (daqueles largueirões) e totalmente desgrenhada. Não sou uma Angelina Jolie, entenda-se (e mesmo que fosse o comentário era inaceitável). Mas o facto de vir afogueada e corada, pareceu ser suficiente para dar azo a um comentário ordinário.

Deveria eu ficar contente e lisonjeada por um homem que não conheço de lado nenhum me querer tirar a roupa e ter a lata de dizer isto em voz alta no meio da rua? Ou será que tenho direito a sentir-me incomodada e a achar que é um abuso por parte daquela pessoa? Tal como dizia Christen Brandt no fim do seu post viral: “Estou farta de ter de lidar com isto”. E de ter de continuar a explicar porquê.