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Expresso

200 milhões de mulheres na sombra da mutilação genital

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David Cameron discursa na "Girl Summit 2014", na Walworth Academy in London, sobre mutilação genital feminina, com Malala a assistir

FOTO © POOL NEW / REUTERS

“Nunca antes foi mais urgente – ou mais possível – acabar com a prática da mutilação genital feminina, evitando sofrimento humano incomensurável”. Palavras do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, durante o Dia Internacional da Tolerância Zero para a Mutilação Genital Feminina, assinalado este fim de semana, onde ficou no ar a promessa de tentativa de extinção desta prática bárbara até 2030.

Para deixar clara a importância do fim da MGF – como se fosse sequer preciso explicar porquê – as Nações Unidas revelaram os resultados do maior estudo de sempre sobre o tema, cujos números são trágicos: pelo menos 200 milhões de meninas, raparigas e mulheres foram vítimas de mutilação genital em 30 países.

Definida pela Organização Mundial de Saúde como todos os procedimentos que envolvem a remoção parcial ou total dos órgãos genitais femininos externos ou que provoquem lesões nestes órgãos por razões não médicas, a MGF continua a ser um drama dos nossos dias. Feita quase sempre em ambiente secreto e perpetuada pelas crenças religiosas que envolvem a pureza da mulher - e que a tornam aceitável aos olhos de tanta gente - , é extremamente urgente perceber qual a sua real dimensão. E estes números revelados pela UNICEF são, no mínimo, assustadores.

Da criminalização à ação concreta das autoridades ainda vai um grande passo

Na maior parte dos países listados neste estudo é predominante o número de raparigas que foram excisadas antes de completar os cinco anos de vida. No Iémen, por exemplo, 85% das meninas passam por isto ainda na sua primeira semana de vida. E embora a larga maioria das excisões aconteça pela mão de pessoas sem qualquer conhecimento médico, na Indonésia mais de metade das vítimas passa por um procedimento feito por médicos que compactuam nesta tradição abominável.

África e Médio oriente continuam a ser as zonas do mundo onde esta prática acontece com maior prevalência, embora nos últimos 30 anos as taxas de prevalência da MGF em raparigas com idades entre os 15 e os 19 anos tenham diminuído nomeadamente na Libéria (em 41%), no Burkina Faso (em 31%), no Quénia (em 30%) e no Egito (em 27%). Também foram vários os países que fizeram alterações legais à prática, como por exemplo a Nigéria e a Gâmbia que no ano passado passaram a criminalizar a sua prática. Mas da criminalização à ação das autoridades no terreno vai um grande passo e o crime continua certamente a acontecer de forma impune.

Dados revelados também este fim de semana mostravam que Portugal registava, até ao final do ano passado, 99 casos de mulheres com MGF, cerca de metade das quais realizadas na Guiné-Bissau. Ou seja, embora a prática não seja realizada por cá, ainda são muitas as meninas que vão de férias aos países de origem dos seus pais e acabam sujeitas a tal barbaridade. Os mesmo acontece nas comunidades migrante de Estado Unidos e América do Sul, por exemplo.

Uma barbaridade que reforça a discriminação contra as meninas e mulheres, que as traumatiza irremediavelmente para o resto das suas vidas e que, sem dúvida, as condiciona enquanto futuras mulheres adultas e com vida sexual ativa. Já para não falar dos riscos de morte inerente e da tremenda violação dos seus direitos mais básicos, com a conivência dos próprios pais.

Se quiserem ficar a saber um bocadinho mais sobre esta hedionda realidade, sugiro que cliquem aqui e que espreitam o relatório da UNICEF. 2030 até pode parecer uma data bem próxima, mas para quem tem de passar por tamanha atrocidade são ainda mais 14 anos de barbárie. Esperemos que não tenha de passar tanto tempo até que esta tradição nefasta seja totalmente erradicada.