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Expresso

A motoqueira que desafia as regras do Paquistão

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De calças com joalheiras, capacete na cabeça, botas e casaco de motoqueira, quem a vê ao longe a galgar estradas paquistanesas a toda a velocidade não imagina que seja uma mulher. Mas por baixo das roupas que escondem as formas do seu corpo, a camisa colorida, os lábios com batom cor-de-rosa e uma mala com franjas sempre a tiracolo denunciam que aquela viajante é, afinal, uma mulher. Chama-se Zenith Irfan, tem apenas 21 anos e embarcou numa viagem épica de mota para satisfazer o último desejo do pai: descobrir o mundo para lá do Paquistão em cima de duas rodas.

Depois da morte do pai, o sonho de uma viagem em torno do globo ficou suspenso no imaginário familiar. Incentivada pela mãe e pelo irmão, Zenith decidiu que, enquanto filha mais velha, lhe cabia a ela cumprir o sonho do progenitor. Como homenagem ao homem justo e de mente aberta que este tinha sido e como forma de ajudar a quebrar tabus num país onde a paridade ainda é uma visão longínqua.

Sem nunca esquecer as tradições com que foi educada, Zenith é a primeira a citar o profeta Maomé nas redes sociais para explicar o porquê desta viagem: “Não me digam quão educados são, digam-me sim quanto é que já viajaram”. Nos últimos dois anos decidiu levar estas palavras à risca e entrou numa jornada pessoal que foi sendo documentada na página “Zenith Irfan – 1 Girl 2 Wheels”. E é uma delícia perceber na primeira pessoa como é a descoberta do mundo através do olhar de alguém cujo destino na sociedade paquistanesa poderia ser pouco mais do que um casamento arranjado e uma vida dedicada às lides domésticas e maternas.

Com o consentimento da família, começou por fazer pequenas viagens dentro do seu país, onde descobriu várias vezes que era a primeira mulher paquistanesa a chegar de mota a alguns dos destinos por onde passava. Percebeu também que, ao contrário do que seria esperado, não era constantemente insultada, nem sequer assediada. O efeito surpresa que provocava nas pessoas que descobriam que afinal era uma mulher tinha demasiado impacto e, na sua larga maioria, ficavam simplesmente sem palavras. Acabando por lhe prestar ajuda, como sinal de respeito. Em troca, Zenith costuma distribuir doces pelas crianças e sorrisos pelas mulheres. “A minha mãe sempre me ensinou que na vida devemos dar, dar, dar.”

Pelo que Zenith conta, na estrada muita gente – homens, mulheres, soldados, turistas, etc – aplaudiram a sua ousadia, já nas redes sociais as opiniões misturavam-se e recebia muitas mensagens insultuosas. Contudo, era a vida real que lhe interessava e o feedback positivo deu-lhe coragem para ir mais longe. No final de 2015 decidiu ir até à China numa viagem de grupo com o irmão e mais três amigos. Atualmente está em Lahore, dedicada aos estudos, mas nos seus planos está já uma longa viagem de mota até ao Dubai.

Tudo isto poderia parecer-nos normal se acontecesse, por exemplo, na Europa. Uma mulher viajar sozinha já não é novidade, tal como uma mulher andar de mota nem sequer é digno de nota. Mas Zenith está no Paquistão. Um dos países mais perigosos do mundo para uma mulher viver, com taxas de violência e discriminação de género altíssimas e onde coisas tão simples como estar numa esplanada de rua ainda é algo exclusivo do mundo masculino.

Ter a coragem de partir sozinha numa viagem é uma ideia arrojada e que acarreta demasiados riscos. Em cima de duas rodas – outra das coisas que estão simplesmente associadas aos homens – é digno de vénia. A sua história tem inspirado inúmeras pessoas com quem se cruza e com quem troca impressões através da sua página pessoal. Quantos aos perigos que corre, em entrevista à CNN respondeu de forma bem pragmática sobre a realidade do seu país: “Se a morte tiver de chegar, também pode acontecer estando eu em casa. Não vou pôr obstáculos aos meus sonhos por causa do medo.”

Esteja o pai dela onde estiver, há de estar orgulhoso. É com atitudes como esta que, pouco a pouco, as sociedades patriarcais começam a mudar.