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Expresso

Não, eu não estou a pedi-las

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FOTO 'Still Not Asking for It', de Rory Banwell.

“Casamento não significa consentimento. Apenas um sim significa sim. Não sou a propriedade de ninguém. A religião não é desculpa. Ninguém convida um violador. Apenas 1 em 6 são reportados. O álcool não é desculpa. A roupa não é um convite. Culpem os violadores, não as vítimas”. Estas são apenas algumas das frases que me prenderam os olhar ao espreitar pela primeira vez o maravilhoso trabalho “Still not Asking for It”, do fotógrafo australiano Rory Banwell.

FOTO 'Still Not Asking for It', de Rory Banwell

O projeto começou em 2014, com o objetivo de criar uma maior consciencialização para a dimensão da violência sexual no seu país, onde a cultura das violações parece propagar-se também entre as camadas mais jovens da sociedade. O conjunto de fotos a preto e branco jogam com a nudez propositada dos participantes – homens e mulheres – que escrevem no seu próprio corpo frases à partida simples, mas que tantas vezes são esquecidas pelos agressores.

Rory dedica o projeto a todos os sobreviventes de situações de agressões sexuais e de violência doméstica, um dos grandes problemas da Austrália. Os números são arrepiantes: 63 mulheres foram assassinadas pelos seus parceiros no último ano. Uma em cada seis são alvo de violência física ou sexual extrema por parte do parceiro, pelo menos uma vez na vida. Mais de 73% destas vítimas são atacadas mais do que uma vez. E um total de 58% dessas mesmas mulheres nunca chega a contactar as autoridades, nem a procurar ajuda médica.

No ano passado, o Governo anunciou um pacote de 62 milhões de euros para a luta contra a violência doméstica e familiar. E o próprio primeiro-ministro disse numa declaração pública que “a violência contra as mulheres é uma das grandes vergonhas da Austrália, é uma desgraça nacional”.

FOTO 'Still Not Asking for It', de Rory Banwell

Posto isto não é de estranhar que a adesão de voluntários para as fotos de Rory tenham sido grande. Homens e mulheres, de diferentes idades, quiseram dar voz a uma das grandes preocupações da nação. Atualmente pai de um bebé com um ano, o fotógrafo abrandou o ritmo das sessões fotográficas, mas decidiu partilhar publicamente na sua página de Facebook muitas das imagens mais impactantes desta série para que a mensagem não fique perdida.

Fotos cruas, de pessoas reais com preocupações que nenhum de nós deveria chutar para o lado. A violência contra as mulheres – que continuam a ser, de longe, a maior percentagem das vítimas – não é só uma vergonha da Austrália, é uma vergonha do mundo. E cabe a todos nós tentar mudá-lo.