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Expresso

O sex appeal de Marcelo importa?

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FOTO LUÍS BARRA

Não, ninguém poria esta questão sequer em cima da mesa. Mas quando falamos de candidatas femininas a coisa muda de figura. Este domingo, Jerónimo de Sousa demonstrou ter mau perder e em vez de se portar como um homenzinho na hora da derrota e de assumir os erros do seu partido, optou antes pelas bocas foleiras. Enquanto cabeça de um partido que supostamente deveria estar próximo do povo, resvalar para comentários sexistas foi a última das suas pedradas no charco. Uma atitude bem demonstrativa da visão retrógrada, inapropriada e discriminatória que ainda prevalece no que toca ao papel da mulher na nossa sociedade.

É tão simples quanto isto: o PCP é um partido que simplesmente não se soube reinventar e que, consequentemente, está cada vez mais longe do eleitorado. Dúvidas houvesse sobre isto e os resultados de domingo deixaram-no novamente claro. Que o PCP não esteja a fazer um bom trabalho e que isso se reflita nos resultados, é compreensível. Mas totalmente incompreensível e imperdoável é que, no auge do despeito frente aos resultados estrondosos do BE, Jerónimo de Sousa diga algo como isto: “podíamos arranjar uma candidata mais engraçadinha e com um discurso mais populista."

Uma frase como esta, saída da boca do secretário geral do partido, é grave. É um desrespeito não só por Marisa Matias – a quem a boca nitidamente se dirigia – mas por todas as portuguesas. E porquê? Porque põe a mulher portuguesa no patamar da “engraçadinha”, que só chega a um cargo de poder graças ao seu palminho de cara e não pelas suas competências. Como se a escolha de uma mulher enquanto líder, tal como enquanto candidata de um partido, fosse uma estratégia meramente baseada nos seus atributos físicos. E que o povo, que é todo idiota, pois está claro, só vota nela precisamente porque ela é gira. Sinceramente, não acham isto ofensivo para todos nós?

Afinal, o que queremos nós de um chefe de Estado?

Esta ideia de que uma mulher só é válida se tiver uma imagem dentro dos estereótipos de beleza já cansa. E o facto de ser perpetuada pela classe política é tremendamente preocupante. Ainda me lembro da confusão inicial em torno de Catarina Martins porque esta não tratava da imagem como era esperado de uma mulher. Mas porque raio se há de esperar de uma mulher que ela seja bonita quando o que realmente interessa é que ela seja competente? Não é isso que todos queremos dos nossos políticos, competência?

No meu gosto pessoal não há nenhum político da nossa praça que seja “engraçadinho” ou que mereça sequer a minha atenção pelo seu sex appeal. Mas claro que isto nunca é conversa no que toca aos homens, ninguém se lembraria de discutir se Marcelo Rebelo de Sousa ou Sampaio da Nóvoa são “engraçadinhos”. E ainda bem que assim é: o que menos interessa quando estamos a escolher um líder para o país são os seus atributos físicos. O essencial é que cumpram as suas funções de forma idónea, com o máximo respeito pelas necessidades dos cidadãos e que nos honrem enquanto representantes do país. Se ficam bem ou não nas fotografias, sinceramente eu não quero saber.