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Expresso

Quem ganhou não foi a abstenção, foi a desresponsabilização

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FOTO ANTÓNIO COTRIM / LUSA

Praticamente metade dos portugueses ontem decidiu ficar em casa, escolhendo o direito à abstenção. Mas esquecendo-se, certamente, do seu dever enquanto cidadãos de uma sociedade democrática. As razões para que tanta gente não tenha ido votar são muitas, desde o desencantamento com a nossa classe política ao simples desinteresse pela vida política do país. Estão no seu direito, é certo. Mas se tudo correr mal com Marcelo Rebelo de Sousa, acredito que estas mesmas pessoas que não votaram serão provavelmente as primeiras a dizer frases do género “a culpa é quem o pôs lá”. Não percebendo que essa culpa é também de todos aqueles que não foram exercer o seu direito ao voto para escolher o rumo do país.

Oiço muitas vezes o argumento de que não ir votar é lutar “contra o sistema”. Ora bem, a abstenção, como todos sabemos, não conta para nada em termos eleitorais. Não é isso que impede que um Presidente seja eleito, aliás, como se pôde ontem constatar. O voto em branco também não é tido em conta enquanto resultado, mas acredito que se esta metade do país que ontem ficou em casa tivesse antes ido votar em branco, manifestando o seu interesse, vontade e responsabilização sobre as escolhas do futuro do país, então talvez a discussão em torno da validez do voto branco se tornasse obrigatória. E quem sabe este passasse até a ser uma forma válida de protesto contra o tal “sistema” quando não se acredita em nenhuma daquelas caras ao lado do quadradinho do voto.

A inação, que pode simplesmente ser analisada como desinteresse e desresponsabilização, nada faz. Aliás, a inação é um dos problemas graves deste país onde toda a gente se queixa mas são poucos os que despendem do seu tempo para manifestar publicamente desagrado.

Sabem há quanto tempo as mulheres têm igualdade de direitos em relação ao voto?

Enquanto mulher sinto verdadeiramente vergonha alheia por todas as mulheres que ontem ficaram em casa. Que esqueceram quantas outras mulheres foram humilhadas, rejeitadas, violentadas e oprimidas ao longo dos séculos para que isto do sufrágio universal – que para nós já não é mais do que um dado adquirido - pudesse ser uma realidade.

Durante grande parte das suas vidas as minhas avós não puderam votar, basicamente eram consideradas cidadãs de segunda num país gerido por homens. Muitas das nossas mães também passaram pelo mesmo no início da sua vida adulta. Em Portugal, o direito ao voto sem qualquer tipo de discriminação (desde o rendimento mensal, ao acesso à educação, por exemplo), tem menos de 50 anos. Minha senhoras, menos 50 anos. Entendam quão recente é o passado deste direito.

Se não vão votar por consciência da importância do voto individual de cada um de nós quando se vive em democracia, pelo menos façam-no por respeito a todas as mulheres que sacrificaram as suas vidas para que tal hoje fosse um tal dado adquirido. Como escrevia esta manhã o Ricardo Costa, “o vértice e a válvula do sistema político continua a ser o Palácio de Belém. Cedo ou tarde, o novo Presidente será chamado a intervir”. Nessa altura, se não gostarem das decisões de Marcelo Rebelo de Sousa, ponham a mão na consciência e lembrem-se que o vosso voto contra a eleição deste Presidente podia ter feito a diferença. Afinal, simplesmente deixaram que outros escolhessem por vocês. E isso não é lutar contra nada.