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Expresso

As grávidas são monstruosas?

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Jenny May Clarkson (à esquerda), com os colegas da equipa da TVNZ

Jenny May Clarkson (à esquerda), com os colegas da equipa da TVNZ

Ao que parece, para um crítico de televisão da Nova Zelândia a resposta é simples: sim, são. Além de monstruosas são inestéticas e não deviam ser aceites em programas de televisão. Estas declarações foram escritas numa revista daquele país sobre uma apresentadora de televisão. Palavras inacreditáveis, mas tristemente reais. Aconteceu esta semana e rapidamente galgou fronteiras.

Jenny May Clarkson é jornalista e responsável pela apresentação de um programa desportivo de televisão. Grávida de oito meses e à espera de gémeos, continua a exercer as suas funções como qualquer grávida cuja condição de saúde o permite. Contudo, o seu tamanho avultado parece causar algum incómodo não só a este crítico de televisão, como a alguns telespectadores que já vieram apoiar as palavras de John Rook. Numa pequena crítica ao programa, Rook questionava: "Quem é o responsável por deixar que uma apresentadora neste estado da gravidez permaneça no ecrã?".

Esta frase, por si só, já era má, mas Rook vai mais longe: “Não tenho problemas em ver mulheres grávidas em situações e sítios normais, mas temos mesmo de tê-las na televisão num estado que é embaraçoso e uma monstruosidade? Por favor, está na altura de as substituir!”. Caro senhor Rook, eu diria é que está na altura de essa revista que o contratou para fazer crítica o substituir. Tais declarações não só são uma tremenda falta de respeito, como são totalmente inaceitáveis.

A expectativas sobre a imagem das mulheres são incompreensíveis

Aclamado por muitos espectadores que nas redes sociais partilharam o seu desagrado pelo estado supostamente “monstruoso” da apresentadora, John Rook foi porém alvo de tremendas críticas também, inclusive da equipa da TVNZ. E acabou mesmo por ter de emitir um pedido de desculpa pela indelicadeza. Mas se realmente considera errado aquilo que disse, nunca saberemos. Eu tenho um dedo que adivinha que não.

Mas vamos lá à génese da questão: o que é que realmente é esperado de uma apresentadora de televisão, mulher? Que apresente o programa desportivo com todo o seu profissionalismo ou que esteja ali para apresentar o seu corpo ao público? Estar grávida e com saúde nunca foi impedimento para ninguém de exercer a sua profissão. Raras exceções, como a moda, podem ser aceitáveis, onde o tamanho do corpo é condição. Mas esta é simplesmente inexplicável. E reveladora da eterna expectativa que existe sobre a imagem da mulher. Se está gorda, é uma baleia. Se está magra, é um pau de virar tripa. Se está grávida, é uma monstruosidade inestética.

Para isso, Jenny May Clarkson tem uma resposta que merece ser partilhada: "Como uma mulher bastante grávida, eu luto com os meus próprios demónios devido às mudanças do meu corpo, mas escolho continuar em frente às câmaras para encorajar outras mulheres a sentirem-se orgulhosas da função que estão a cumprir: gerar vidas". Permitam-me o desabafo, mas realmente só pessoas muito doentes é que podem considerar a imagem de uma grávida uma monstruosidade. Pelos vistos anda muita gente doente por aí.