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Expresso

O feminismo defendido por homens de minissaia

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O que fazem dezenas de homens de minissaia nas ruas de Amesterdão num fim de semana de janeiro? Não, não estão a brincar ao Carnaval antecipado. Estão sim a fazer um protesto contra a violência sobre as mulheres e a eterna culpabilização das vítimas de assédio e abuso sexual. A minissaia não é mais do que uma metáfora para tudo o resto: nada justifica tais abusos. Abusos esses que são crime, algo que ninguém deveria esquecer. Poucas semanas depois dos trágicos acontecimentos em Colónia, os homens holandeses decidiram que era altura de relembrar isto ao mundo.

Numa marcha que aconteceu no fim de semana passado, foram muitos os jovens que se juntaram para passar esta mensagem. “Estamos a inverter os papéis e somos nós homens que celebramos a saia e a liberdade que lhe é inerente. Mostramos os nossos joelhos peludos perante uma sociedade livre, para que as mulheres possam andar na rua de minissaia sem serem incomodadas, seja de dia ou de noite”, diziam na página de Facebook do evento. “É bastante comum que a violência sexual contra as mulheres seja desvalorizada como se fosse um problema só delas: não vistam saias curtas. Contudo essa não é a solução. A culpa não é das saias curtas.”

É muito interessante ver uma iniciativa destas partir de um grupo de homens. Há muito gente que até hoje ainda não percebeu o real significado da palavra feminismo e que continua a associá-lo exclusivamente às mulheres. Feministas não são mulheres, são pessoas. Que se indignam contra uma discriminação específica sobre o sexo feminino.

Ser feminista não é ser esganiçada, mal resolvida ou do contra

Ser feminista não é ser esganiçada, não é ser mal-resolvida, não é ser do contra, nem muito menos queimar soutiens em praça pública ou ser anti sexo masculino. Aliás, quem defende a igualdade de direitos das mulheres não pede, nem nunca pediu, a diminuição dos direitos dos homens, seria ridículo. Ser feminista é ser sim consciente para esta realidade que continua a afetar a vida de demasiadas mulheres mundo fora, inclusive nas sociedades mais desenvolvidas, como a europeia.

Claro que podíamos falar exclusivamente de direitos humanos, mas não estaríamos a ser realistas, nem concretos. Há muitos homens discriminados mundo fora, pelas mais diversas situações, mas comparativamente, as mulheres – e não digo isto com qualquer pinga de demagogia – continuam a ser o elo mais fraco em demasiadas situações. Vítimas fáceis e recorrentes, seja em contexto laboral, em igualdade de oportunidades, em situações de violência ou até mesmo no que toca à percepção corporal ou à liberdade sexual. É incontornável: a discriminação de género ainda está no meio de nós e o sexismo propaga-se cheio de subtilezas.

Este não é um problema que deva ser exclusivamente debatido e combatido pelas mulheres, seria redutor para os homens acharmos que sim. É um problema que nos afeta todos nós enquanto cidadãos de países democráticos, onde a igualdade de oportunidades e de vivências deveria ser algo vivido em pleno há já muito tempo. Não basta já podermos votar, termos acesso à educação ou não dependermos economicamente dos homens. Entendam: a igualdade não se resume a isso. Os filhos e as filhas que estamos hoje a criar agradecem que no futuro toda a gente o perceba. E, quem sabe, que a palavra feminismo deixe de fazer sentido.