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Expresso

Vítima de ataque com ácido dá a cara por uma marca de moda

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Já por aqui falei várias vezes sobre o drama dos ataques com ácido sulfúrico que afetam meninas e mulheres, principalmente na Índia e Paquistão. As histórias das vítimas de tais crimes são sempre trágicas, mas acarretam uma dose de coragem gigante que também nos inspiram. O regresso à vida quotidiana é difícil, por vezes uma tarefa que dura uma eternidade. Mas há quem tenha conseguido dar a volta, recuperado o amor-próprio, o amor partilhado a dois e, acima de tudo, a dignidade perante uma sociedade que vê estas mulheres como irrecuperáveis. Laxmi Saa é sem dúvida uma dessas pessoas e agora volta a dar que falar ao ser cara uma campanha de moda.

A jovem residente em Deli tinha 15 anos quando foi atacada com ácido sulfúrico por um homem de 32 anos que queria namorar consigo. Quando ela o rejeitou, aquele “crime de honra” foi a vingança. Laxmi ficou desfigurada e com a pela dos braços parcialmente destruída. Filha de uma família de classe média, o futuro de Laxmi poderia ter sido viver escondida em casa para sempre. Mas não foi isso que aconteceu.

Laxmi é hoje um dos rostos mais fortes no que toca ao ativismo contra estes crimes na Índia, que continuam a afetar mais de mil meninas e mulheres todos os anos. Montou uma associação, deu a cara desfigurada pela causa e tornou-se presença assídua em debates e programas de televisão para falar sobre o tema. Recolheu mais de 27 mil assinaturas, numa petição que pedia a criminalização da venda de ácido sulfúrico e é em parte graças a ela que hoje a sua venda é ilegal naquele país. Contudo, continua a ser fácil comprá-lo e é por isso de Laxmi não se cala e continua a manter ações regulares que já incluíram, por exemplo, uma greve de fome.

Laxmi: um grande amor e o mundo da moda

A sua vida amorosa é outro dos fatores que em muito tem contribuído para agitar a esperança das vítimas em recuperação. Atualmente a viver com o namorado, o jornalista Alok Dixit, que se dedica ao ativismo pelo fim da repressão da Internet na Índia, Laxmi é um exemplo de como a possibilidade de viver um grande amor não acaba com um destes ataques. E faz ainda frente às convenções do seu país ao não casar. O motivo é simples: “A aparência da noiva é o mais importante nos casamentos, é isso que as pessoas querem ver, mais do que realmente celebrarem a nossa felicidade.”

Em 2014 foi distinguida com um dos Bios of 2014 Award, atribuídos pelos Estados Unidos a mulheres cujo papel na evolução social dos países se destaca e já anteriormente tinha recebido o Women of Courage Award. Agora chega ao mundo da publicidade através da marca de moda indiana Viva N Diva. Não só para “consciencializar o público para o facto de que a beleza está para lá dos simples atributos físicos” – como explicou o responsável pela marca numa entrevista à BBC - , mas acima de tudo para retirar o estigma da eterna desgraça atribuído às vítimas.

“O problema não é apenas o de ser vítima, é também a vitimização de que somos alvo por parte da nossa sociedade. Somos tratadas como imprestáveis, como se as nossas vidas fossem um desperdício”, explica a jovem ativista, hoje com 25 anos. Participar numa ação que envolve beleza é também deixar clara uma mensagem aos criminosos: não é o ácido que vai destruir a vida de quem sofre tal ataque, nem muito menos a sua beleza pessoal. Um aplauso de pé a Laxmi Saa.