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Expresso

A resposta de Rania ao cartoon de Charlie Hebdo

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FOTO © FRANCOIS LENOIR / REUTERS

Durante o fim de semana houve um tweet que deu que falar: chocada com um cartoon publicado no jornal francês Charlie Hebdo, a rainha Rania da Jordânia decidiu responder de forma curta e clara. A partilha de um cartoon de um artista jordano, juntamente com uma pequena frase foram suficientes para incendiar o Twitter.

FOTO Charlie Hebdo

FOTO Charlie Hebdo

Todos nós no lembramos certamente de Aylan Kurdi, o menino sírio que foi encontrado morto numa praia turca. No cartoon em causa publicado pelo jornal satírico, Aylan surge já adulto, transformado num adulto pervertido que anda a atacar mulheres na Europa. A ligação da imagem do menino à complexa questão do episódio de violência do fim de ano em Colónia – cujos contornos continuam por perceber, principalmente quem esteve por trás de tal ataque concertado, que supostamente envolveu 1000 homens estrangeiros – não foi bem aceite pela rainha jordana, que tem sido uma voz bastante ativa quanto à ajuda aos refugiados do conflito sírio.

Na sua página de Twitter partilhou um cartoon onde o pequeno Aylan surge transformado num médico. Junto à imagem, da autoria do cartoonista Osama Hajjaj, a seguinte legenda: “Aylan Aylan podia ter-se transformado num médico, num professor ou num pai carinhoso."

Rania, a “rainha dos corações”

Rania não é apenas uma cara bonita, por mais que já tenha sido eleito uma das mulheres mais bela do mundo. Ativista ferrenha nos direitos humanos e na luta por maior igualdade não só entre nações, mas também entre homens e mulheres, Rania tem conseguido de certa forma ter uma voz forte no Médio Oriente. Mesmo sendo mulher e estando dentro do espartilho da sua posição enquanto rainha de um país que não é de todo fácil. Filha de pais palestinianos, o seu próprio casamento foi uma forma de mostrar que misturar várias culturas não tem, nem deve, ser visto como algo impossível, nem muito menos conflituoso.

Desde o fim da violência doméstica e dos crimes de honra, à importância da doação de órgãos e ao empreendedorismo feminino, têm sido muitas as áreas de trabalho por onde vai deixando a sua marca. Além de líder da Comissão para os Direitos Humanos na Jordânia, está também ligada à UNICEF, com quem tem desenvolvido muito trabalho de terreno no que diz respeito à proteção de menores, principalmente quando falamos de refugiados.

Depois de a Jordânia ter acolhido mais de um milhão de pessoas, Rania tornou-se um género de porta-voz desta causa, seja para apontar o dedo à falta de cooperação internacional na Síria, seja para espalhar críticas à forma como a Europa tem reagido a uma crise humanitária que já arrastou demasiadas pessoas para a morte. Não é portanto de estranhar que tenha agora decidido criticar publicamente o cartoon de Charlie Hebdo.

Embora supostamente reflita uma crítica à forma demasiado rápida e incoerente com que os media e a opinião pública mudam de visão em relação ao refugiados, para muita gente a alusão ao pequeno Aylan é simplesmente chocante e despropositada. A sátira tem disto mesmo e, em última instância, depende sempre da interpretação de cada leitor final.

A de Rania da Jordânia foi esta e mesmo que possa não ir de acordo à intenção do cartoonista, é válida. E a sua resposta dá certamente que pensar. Aylan poderia realmente ter sido tudo, mas a ajuda não chegou a tempo. E se há uma discussão a ter, é essa. Continua a ser essa.