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Expresso

Há um elefante sexista no Vale

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FOTO © SHANNON STAPLETON / REUTERS

Valley é impossível não pendermos para o mundo da ilusão. Imaginamos grandes empresas com gente criativa e ‘out of the box,’ startups de mentes descomplexadas e pouco formatas para as habituais convenções do mundo do trabalho. Imaginamos ambientes profissionais onde todos têm oportunidades iguais desde que tenham capacidades para os cargos e para a pressão que eles acarretam. Mas raramente pensamos em discriminação de género. Mas ela existe, e não é pouca.

“O Elefante no Vale” é o nome de um estudo tornado público recentemente, que revela os resultados de um questionário feito a mais de 200 mulheres com mais de dez anos de carreira na área da tecnologia, em São Francisco. Mais de metade não tem dúvidas quanto à existência de discriminação de género no que toca a oportunidades de ascensão. E a maternidade continua a ser o grande bicho-papão no meio disto. Como se o facto de uma mulher ser mãe a impedisse não só de ter capacidade e disponibilidade profissional, como também uma boa dose de ambição.

“É casada? Está a planear ter filhos? Como é que podemos ter a certeza que de repente não decide ter um filho e ir de licença? Como é que tenciona tomar conta dos seus filhos e trabalhar aqui? Ainda bem que não tem filhos porque isso não é compatível com o mundo das startups”. Por incrível que possa parecer, mais de 75% das profissionais séniores entrevistadas já ouviram perguntas destas. Que não só são altamente sexistas, como potencialmente ilegais. Raramente são feitas queixas, tal como raramente são contestadas quaisquer pressões no que toca a licenças de maternidade. Aliás, 52% destas mulheres admitiu mesmo não ter desfrutado de todo o seu tempo legal de licença de maternidade com medo das consequências que isso poderia trazer à sua carreira.

Assédio sexual atinge 60% das mulheres

Os números alarmantes continuam: 60% das inquiridas também afirmaram já ter sido alvo de assédio sexual por parte de colegas de trabalho, sendo que na maioria dos casos eram superiores hierárquicos. Uma delas chega mesmo a contar que por ter recusado o avanço sexual do dono da empresa durante uma viagem de trabalho, nunca mais teve a oportunidade de o fazer.

Cerca de 80% destas mulheres já ouviu a seguinte crítica: és “demasiado agressiva”, enquanto que mais de metade ouvem constantemente que devem “falar mais e ser mais assertivas”. Como diria uma das entrevistadas: “Para as mulheres não há meio termo, ou somos consideradas mandonas, ou somos demasiado moles”. Praticamente metade das inquiridas já teve de fazer tarefas menores, tarefas essas que os superiores não pedem a empregados do sexo masculino. E 66% queixam-se de ter sido excluídas de ações de networking ou de ações diretas com clientes.

Entre as empresas e startups onde estas 200 mulheres trabalharam encontram-se nomes como as gigantes Apple e Google. O resumo do estudo pode ser visto aqui. São Francisco pode ser considerada a terra das oportunidades, mas infelizmente elas não parecem ser iguais para todos. Para as mulheres não são certamente. É por números como estes que a palavra feminismo continua a fazer sentido.