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Expresso

“Tenho cancro da mama e nunca me senti tão bonita quanto agora”

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Aos 41 anos, Mieko Rye sabe de trás para frente o que é ser considerada uma mulher bonita. Durante mais de vinte anos foi um nome sonante da moda, capa de revista, cara de inúmeros catálogos e imagem de marcas de renome. Quando apareceu era ainda uma miúda e o seu corpo demasiado curvilíneo para as medidas base das modelos da época, as suas feições exóticas, o cabelo encaracolado e a sua pele mulata demoraram a ser aceites. Mas quando entrou finalmente na indústria transformou-se num ícone. Durante duas décadas foi aplaudida pelo seu corpo em passarelas de todo o mundo. Mas o mesmo corpo que lhe rendeu uma carreira de topo está agora deteriorar-se numa longa e penosa batalha contra o cancro da mama.

Como é que uma mulher que vive da imagem ultrapassa isto? Mudando o paradigma. Lutando pela vida, mudando as prioridades, aceitando a sua nova condição em vez de a rejeitar. “É verdadeiramente humilhante passar de viajar e trabalhar a nível internacional para a realidade de estar confinada a uma cama. Cada dia é um desafio quando prazeres tão simples como comer, ir fazer uma caminhada, ou pegar no meu filho ao colo me escapam entre os dedos”, decidiu contar publicamente Mieko Ryes, num post de Facebook onde partilhou pela primeira vez uma foto sua com o seu “novo corpo”.

O objetivo desta partilha foi agitar consciências para a doença e já que falamos nisto nunca é demais lembrar que este tipo de cancro não só é o mais comum entre as mulheres, como por cá mata anualmente 1500 pessoas e atinge cerca de 6000 novas pacientes. Os exames de rastreio são cada vez mais necessários, dado que a idade de incidência do cancro da mama nas mulheres também tem vindo a diminuir.

“Não é o cabelo que te define”

Prevenir é essencial, tal como partilhar reforço positivo e mensagens de esperança. O cancro, quando chega, muda tudo. Mas Mieko quer deixar claro que mesmo quando tudo parece desabar, essa mudança também pode significar algo positivo: “Com o cancro vem a destruição. Contudo, foi ele que me proporcionou a oportunidade de me reconstruir enquanto pessoa, de dentro para fora. Deixei cair tudo o que não era realmente necessário e que, muito honestamente, só impedia a minha capacidade de crescer.”

Prestes a fazer uma dupla mastectomia que a poderá ajudar a vencer a batalha contra o cancro, Mieko assume que hoje em dia já não tem “muitas das partes do corpo que definem culturalmente os padrões das mulheres… sobrancelhas, cabelo, pestanas e, em breve, o peito…”. Mas longe dos holofotes da moda e da constante necessidade de aprovação de terceiros, não tem dúvidas: “Neste momento sou simplesmente a Mieko. Não tenho nada a esconder. Tenho um cancro da mama de grau 3 e nunca me senti mais bonita em toda a minha vida.”

Numa sociedade onde a pressão dos ideais de beleza sobre as mulheres são mais que muitos, a percepção corporal de quem é afetado pelas mazelas do cancro da mama é um tema recorrente e sensível. No que toca à feminilidade, tanto o peito como o cabelo são um género de protagonistas na imagem de qualquer mulher. Contudo, tal como dizia a atriz e modelo Sofia Ribeiro num comovente vídeo que partilhou na semana passada e que se tornou viral, “não é isso que nos define”. Mieko Rye vem precisamente reforçar essa mensagem com esta corajosa partilha no seu Facebook, onde se expõe sem medos. Quando se enfrenta uma doença que nos pode roubar a vida, os habituais medos do nosso dia a dia ganham certamente outra dimensão.