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Expresso

Que se faça justiça na Alemanha, por favor

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FOTO WOLFGANG RATTAY/REUTERS

Mais de 120 mulheres foram roubadas, molestadas e, em três casos, violadas durante festividades de passagem de ano numa grande cidade europeia. Um ataque organizado, onde supostamente participaram mais de mil homens em grupos coordenados. Grupos esses que a polícia alemã veio dizer que já estavam sob investigação, embora na realidade até agora apenas 16 pessoas tenham sido detidas na qualidade de suspeitos. A mesma polícia que inicialmente veio dizer publicamente que os acontecimentos daquela noites tinham sido “tranquilos” (e que já veio pedir desculpa pública pelas declarações enganosas), é a mesma que também disse imediatamente que os tais jovens eram “aparentemente de origem árabe ou norte-africana”. “Aparentemente” parece-me uma palavra demasiado vaga para tratarmos um crime como este, que exige justiça clara, rápida e eficaz, já que a segurança básica destas mulheres não foi garantida.

Sem surpresas, o mundo debruçou-se de imediato sobre os refugiados, que “aparentemente” são os grandes culpados do ataque, embora o único facto concreto que as autoridades conseguiram apurar até à hora em que escrevo isto é que os ataques foram perpetuados por homens jovens e alcoolizados. E no meio de tanta especulação, quase toda a gente parece esquecer-se da verdadeira discussão que deveria ser posta em cima de mesa: por mais que o mundo evolua, o sexo feminino continua a ser visto como o elo mais fraco e um alvo primordial no que toca à violência. E que seja quem for que tenha levado a cabo um ataque tão macabro, cobarde e organizado quanto este, é inaceitável que isto possa acontecer, ainda mais com as autoridades a assistirem na primeira fila sem capacidade de reação.

Alemanha entre os países europeus com maior número de ataques sexuais

Curioso que enquanto o mundo cospe culpas aos refugiados sírios sem provas concretas nesse sentido – convenhamos, ser “aparentemente” do norte de África ou árabe não significa ser automaticamente um refugiado e é estranho que a própria polícia fomente estas especulações – durante a manifestação levada a cabo por 400 mulheres em Colónia aquilo que realmente foi pedido por todas foi uma ação consistente pelo fim do sexismo e da violência contra as mulheres. Basta olhar para os cartazes: “Contra o Sexismo, Contra o Racismo”, “O silêncio esconde a violência”, “O sexismo não conhece nações”, “No mundo inteiro: fim à violência sobre as mulheres”.

Ao contrário do que alguns jornais internacionais noticiaram, não se tratou de uma manifestação contra a islamização, mas sim de um protesto contra um sistema patriarcal instituído nas nossas mentalidades desde sempre – basta ver as deploráveis declarações da autarca de Colónia que sugere que as mulheres é que têm de ter cuidado ao andarem na rua- , que leva a que a mulher seja vista como um alvo aceitável. Algo que na Alemanha ainda é uma realidade bem presente. Dados do último relatório da Agência Europeia dos Direitos Fundamentais revelam que, logo abaixo da Suécia e da Dinamarca, a Alemanha surge na lista dos países europeus com maior número de abusos sexuais. E um levantamento feito pelo Ministério da Família alemão reporta que 37% das alemãs já fora molestadas.

De onde saem mil pessoas de repente sem a polícia reparar?

Se estes números são maus, o que aconteceu na noite de fim de ano vai ainda mais longe. A forma leviana com que grupos de homens atuaram em conjunto naquela noite para apalpar mulheres em praça pública, roubá-las, infligir-lhes pânico e, em alguns casos, violarem-nas, é execrável. O propósito de tal ação nem se percebe. E a inação da polícia, que pouco tempo antes precisara de reforços para fazer dispersar a multidão que se excedia nas comemorações, é incompreensível. É um caminho fácil apontarmos o dedo às pessoas recém-chegadas à Alemanha e aos perigos do mundo islâmico, cada vez mais generalizado. Mas quando se aponta o dedo e se culpa alguém de um crime é preciso ter factos concretos para o fazer. E neste caso ainda não há.

De onde saem mil pessoas de repente? Se eram mil homens, como é que até agora apenas 16 suspeitos foram detidos sendo que já passaram 8 dias? Dizem as autoridades que já há alguns meses que tinham identificado grupos problemáticos, ainda antes da chegada em massa dos refugiados. Como é que estando esses grupos supostamente sinalizados, nada foi feito para os deter anteriormente? Como é num sítio que é conhecido pelos muitos assaltos que ali acontecem diariamente, em pleno dia de festa de massas, e já depois de desacatos, não há um reforço policial que ajude a prevenir um massacre do género? O que revelam as câmaras de segurança, cujas imagens permanecem no segredo dos deuses? E o que levaria um grupo de mil refugiados a molestarem mulheres de forma organizada? Vingança por terem sido acolhidos num país após passarem pelo inferno da guerra nos seus países? Faz sequer sentido?

Não sei, mas tenho dificuldade em embarcar na teoria de conspiração com motivação xenófoba. Seja como for, este é um ataque em massa que não pode ficar impune. Mais de 120 mulheres foram molestadas publicamente com a polícia a olhar, entendam, mais de 120. Uma que fosse teria sido grave. Quem esteve envolvido simplesmente tem de ser detido. Sejam os atacantes alemães ou estrangeiros, que se cumpra a lei. Quem tem de ser punido que seja, não é a nacionalidade que está em causa. É uma ação de crime organizado contra as mulheres. Posto isto, menos especulação e mais ação, por favor. Que se faça justiça urgente.