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Expresso

Jogador de críquete multado por engate em direto na TV

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Mel McLaughlin, da TV Network Ten durante a entrevista a Chris Gayle

Dez mil dólares australianos. É este o valor final da multa que o jogador de críquete Chris Gayle vai ter de pagar por ter feito apreciações totalmente inapropriadas durante uma entrevista em direto para a televisão. Enquanto Mel McLaughlin, da TV Network Ten, o questionava sobre a partida, o jogador decidiu fazer o seguinte comentário: “Só vim aqui porque queria ser entrevistado por ti. Estou a ver os teus olhos pela primeira vez, são mesmo giros. Depois de ganhar este jogo quero ir beber um copo contigo. Não precisas corar, querida.”

Ok, podíamos até achar que é tudo um grande exagero e que o homem não fez mais do que um simples convite para sair. Mas seria errado. Imaginemos que eu, mulher, ia entrevistar em direto Pedro Passos Coelho, por exemplo. E que a meio da entrevista lhe dizia algo como “tens uns olhos tão bonitos, vamos beber um copo depois disto? Não precisas de corar, fofo”. Quem diz Passos Coelho diz Cristiano Ronaldo ou qualquer outra pessoa, seja uma figura pública ou não. Será que iam achar normal e aceitável a falta de profissionalismo da jornalista? Ou será que iam achar que o comentário tinha sido desrespeitoso, totalmente desajustado e deveras abusivo para o momento?

Em causa não está um simples convite para beber um copo. Está sim o desrespeito profissional demonstrado por um pessoa que se encontra - de forma totalmente cordial e respeitosa - a cumprir as funções que lhe competem. Ser mulher é apenas um pormenor naquele momento. Se à jornalista é exigido respeito pelo entrevistado, o mesmo é exigido ao contrário. Ponto final, são as regras do jogo numa sociedade civilizada. Por mais que Chris Gayle até possa ter achado Mel McLaughlin atraente, é insultuoso aproveitar um momento como uma entrevista para lhe chamar “querida” (como dizia o pessoal do meu bairro quando era miúda: “mas eu conheço-te de algum lado?!”) e fazer um convite de cariz totalmente pessoal quando estão no local trabalho de ambos, ainda que provisório.

É uma entrevista, não é uma conversa no Tinder

Além de insultuoso para a jornalista (seria insultuoso em qualquer outra profissão), é também uma tremenda falta de respeito para com a camisola que ele veste enquanto membro de um clube, até porque é precisamente enquanto jogador desse clube que ele está a dar a entrevista. Convém frisar: foi o próprio clube que o multou. Por ter tido um comportamento que vai contra os seus valores e código de conduta. Além da multa só não percebo como é que também não foi suspenso para perceber melhor a mensagem.

Isto acontece num país onde o próprio primeiro-ministro admite publicamente que “a violência contras as mulheres é a vergonha nacional da Austrália”, e onde foi lançada há uns meses uma gigante campanha de consciencialização dos comportamentos abusivos no que toca à discriminação de género. Se acham que o comentário de Chris Gayle foi simplesmente “engraçado” – como alguns comentadores desportivos vieram dizer nas redes sociais horas depois de se saber da multa – lamento discordar.

Não tem piada. E acharmos piada é abrirmos a porta para uma realidade assumida, onde as pessoas – homens e mulheres, entenda-se! - simplesmente não podem sentir-se incomodadas ao serem assediadas com convites e comentários inapropriados como este, que foi feito totalmente fora de contexto. Estamos a falar de um momento profissional, não estamos propriamente a falar de um conversa de engate no Tinder. E Chris já tem idade suficiente para perceber a diferença.