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Expresso

As meninas dos talibãs

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No Afeganistão, as mulheres hoje em dia já podem sair à rua sem um acompanhante masculino. Já têm acesso às escolas e até mesmo às universidades. Já podem ir aos hospitais públicos sozinhas, sem serem castigadas por serem observadas por um médico homem. Vive-se uma nova, mas frágil, sensação de regresso às liberdades mais básicas após os muitos longos anos de terror imposto pelo extremismo religioso do regime talibã. Mas essas liberdades parecem estar novamente sob ameaça e há inúmeras associações dos direitos humanos preocupadas com o rumo que o futuro pode ganhar.

Ontem cruzei-me com um documentário inquietante novamente partilhado pela Al-Jazeera, intitulado “As Meninas dos Talibãs”. Um trabalho assinado por Najibullah Quraishi e Jamie Doran, que é uma verdadeira viagem ao interior do universo das madrasas para que têm proliferado nos últimos anos no Afeganistão. Estimam que ao todo já existam mais de 1300 escolas religiosas do género espalhadas pelo país, embora poucas delas estejam registadas oficialmente. Lá dentro não se ensina a ler, nem a escrever. Ensinam-se apenas os preceitos da religião, regulada pela pesada sharia. Fundada por clérigos de Kunduz, Ashraf-ul Madares é uma das madrasas mais controversas do Afeganistão, frequentada já por mais de seis mil meninas e jovens mulheres.

As meninas e raparigas vão à madrasa exclusivamente para estudar o Corão e os ensinamentos do profeta. Na maioria dos casos, o que é passada é uma verdadeira lavagem cerebral religiosa, que as leva a acreditarem que viveram sem os seus direitos mais básicos é algo não só aceitável, como bom para as suas vidas. A obediência total ao homem é lei. Mas se um pai lhes ensina ações que vão contra o que diz o Corão – como, por exemplo, não obrigarem as filhas e esposas a usarem hijab ou a rezar – devem ser denunciados e contrariados no seu enorme pecado. Deus está acima de tudo, custe o que custar. E isso é tão perigoso a longo prazo.

Meninas educadas para a submissão não ajudam à evolução da sociedade

Vestidas a rigor, apenas com os olhos e as mãos descobertos, são ensinadas exclusivamente por homens. Homens esses com quem não estão autorizadas a permanecer em contato direto, cara a cara. Desde o início aprendem uma coisa: devem abdicar dos seus desejos de carreira seja em que área for, pois o Corão - ou melhor, esta interpretação do mesmo - proíbe que as mulheres trabalhem. Assim, o seu foco exclusivo deverá ser a religião e a família, uma vida de submissão.

É altamente perturbador ver uma jovem mulher de 20 anos que tinha dedicado parte dos seus sonhos e esforços escolares à ambição de se tornar médica a dizer, sem pestanejar, que aceita e compreende que isso seja uma possibilidade exclusivamente masculina. Que a religião não permite que uma mulher tenha um emprego. Que ser médica seria algo do diabo.

Não há nada de errado em querermos passar valores religiosos aos nossos filhos quando eles não os diminuem enquanto seres humanos. Por cá, ninguém condenaria uma mãe ou um pai por pôr os filhos na catequese, por exemplo, uma vez que a mensagem da Bíblia com interpretação medieval já vai longe. Mas ali não se ensinam apenas valores básicos, tal como não se ensina o islamismo real, aquele que honra tantas pessoas mundo fora. Ensina-se sim o caminho do fundamentalismo. Ensinam-se crianças a desvalorizarem desde tenra idade os seus direitos humanos mais simples em prol da ideia de um castigo eterno. Incentiva-se a iliteracia, apregoa-se a submissão total como modo de vida. E que eu saiba isso em nada contribui para a evolução seja de que sociedade for.

Ver este documentário ajuda-nos a perceber quão simples é moldar uma mente humana, principalmente quando ainda é jovem. Mesmo quando a liberdade já é uma possibilidade real. Espreitem, vale bem a pena.