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Expresso

Dia histórico para as “mulheres de conforto” coreanas

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FOTO AHN SEHONG

“Não havia opção, não podíamos dizer que não queríamos ir. Se o fizéssemos éramos vistas como traidoras e todos sabemos o que acontecia aos traidores”. A história desta “mulher de conforto” foi contada na primeira pessoa por Kim Bok-dong à CNN há uns meses. Tinha 14 anos quando os soldados japoneses chegaram à sua aldeia na Coreia do sul e a levaram supostamente para ir trabalhar numa fábrica de costura, dedicada às fardas dos soldados. Para trás ficou a família e a vida que tinha conhecido até ali. O que encontrou depois não foi uma fábrica, mas sim um bordel onde foi transformada em escrava sexual dos soldados nipónicos durante a II Guerra Mundial.

À porta daquela “estação de conforto”, como eram chamados os bordéis, os soldados alinhavam-se numa longa fila à espera da sua vez. Às mulheres e meninas trazidas à força das suas aldeias era-lhes dada a tarefa de “revitalizarem” os homens que estavam na guerra. Conta Kim que aos sábados começavam ao meio-dia e terminavam às 8 da noite. Cada soldados não demorava mais de 5 minutos, para que todos tivessem direito ao seu momento “de conforto”. “Quando acabava eu nem sequer me conseguia levantar, não conseguia sentir senão dores da cintura para baixo. Era desumano, extenuante, excruciante.”

Japão pede desculpa “do fundo do coração”

Kim Bok-dong foi apenas uma das cerca de 200 mil coreanas que passaram por este processo de escravidão sexual em tempos de guerra, às mãos dos soldados japoneses. Na China o número poderá ser ainda mais alto. O Japão já reconhece as “mulheres de conforto” há vários anos mas nunca esteve disposto a indemnizá-las diretamente. E é por isso que o acordo feito hoje – com a promessa japonesa de indemnização destas mulheres – não só é histórico para a dignidade das vítimas, como marca o abrir de um caminho para uma relação menos tensa entre Japão e Coreia do Sul.

“Shinzo Abe, como primeiro-ministro do Japão, pede desculpas do fundo do coração a todos os que sofreram e que ficaram com cicatrizes que são difíceis de sarar física e mentalmente”, disse hoje Fumio Kishida, ministro japonês dos Negócios Estrangeiros, depois do aperto de mão com o homólogo sul-coreano, Yun Byung-se. Além de pedir desculpa, o Japão comprometeu-se a pagar cerca de 7,5 milhões de euros de compensação às poucas dezenas de coreanas que foram alvo deste processo de escravidão e que ainda estão vivas.

Indemnizar diretamente estas mulheres é finalmente humanizá-las. É assumir um crime hediondo e não deixar que os anos o apaguem como se não tivesse acontecido. É deixar de pensar nestas vítimas como apenas mais um número que faz parte de uma estatística dantesca, para passar a dar-lhes um nome. Já não restam muitas, mas as que ainda estão vivas merecem-no. Em seu nome, e em nome de todas as muitas mulheres que foram alvo de tamanho crime. Que as desumanizou durante tempo demais.

Humanizá-las é também dar-lhes um rosto. Nesse sentido aproveito para sugerir a todos que espreitem este trabalho do fotógrafo sul-coreano Ahn Sehong que se dedicou durante vários anos a ouvir as histórias destas mulheres, carregadas de cicatrizes da alma impossíveis de sarar totalmente.