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Expresso

Não passes dos limites para não acabares violada

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Imaginemos que em plena época festiva, entre a folia de jantares de amigos e de empresas, saídas à noite durante a semana e correrias para saltitar de festa em festa para os tais beijinhos de “boas festas”, a polícia da nossa cidade espalhava cartazes com frases de prevenção anti-violações a pensar nos perigos a que, principalmente, as mulheres podem estar sujeitas. Neles aconselham-nas publicamente a “planearem bem a rota que fazem até casa”, a “ficarem na companhia de amigos” sempre que possível em vez de andarem sozinhas e, pois está claro, a “terem cuidado com os seus limites” não vá alguém considerar que está mesmo a pedi-las por ter bebido demais. Será que sou só eu a achar que esta campanha levada a cabo em Inglaterra é uma total subversão da forma como devemos abordar os crimes de assédio e abuso sexual?

A campanha chama-se “Time to Stop” e foi lançada em 2012 pela polícia de Norfolk, uma região inglesa onde o número de crimes deste género parece aumentar de ano para ano. Para travar tais ocorrências foram espalhados cartazes junto de bares e outras zonas de animação noturna onde as potenciais vítimas são alertadas para os perigos de andarem sozinhas à noite. Mas em vez de tranquilizarem os cidadãos – neste caso as cidadãs, uma vez que a campanha é especificamente a elas direcionada – e garantirem maior ação policial durante a época festiva, parece-me a mim que simplesmente chutam a responsabilidade para os ombros de quem pode ser uma potencial vítima de violência sexual.

Responsabilizar a vítima é um caminho perigoso

Elas que tenham cuidado com o caminho que escolhem a caminho de casa, elas que tenham cuidado a escolher as companhias, elas que não bebam muito e, se possível, que até tenha cuidado com aquilo que vestem para não atrair predadores. O que ninguém lhes diz é que, independentemente daquilo que bebem ou da hora a que decidam ir para casa, nada justifica que alguém possa olhar para ela como um potencial alvo de ataque sexual. E que caso haja alguém disposto a cometer tamanho crime, haverá autoridades com uma ação consertada a garantir a segurança da cidade.

As críticas não se fizeram esperar mas a polícia defende-se e mantém a campanha, alegando que esta é uma forma de sensibilização que visa consciencializar a população para o facto de esta ser uma altura do ano mais movimentada e, consequentemente, com uma intervenção menos eficaz das autoridades. Pergunto eu: não seria mais produtivo e coerente aumentar o reforço policial numa altura do ano que, dizem-lhes as estatísticas dos anos anteriores, é mais propícia a ataques?

No caso de Norfolk, os números mostram que a ideia é um tiro no pé: em 2013 foram registadas 290 violações, já em 2014 o número subiu para 374. Desde abril deste ano já foram mais de 300. Responsabilizar a vítima, em vez de reforçar a ideia de que a polícia está atenta e com uma ação implacável no terreno em termos de prevenção destes e outros crimes, é um caminho perigoso e totalmente ineficaz, além de ofensivo tanto para homens como mulheres. Eles são todos postos no papel de potencial vilão, elas ficam com o ónus de terem de pensar bem no que fazem se não querem acabar como vítimas de violação. Um crime para o qual não há justificação possível. Algo que promove não só a sensação de insegurança entre os cidadãos, como também a ideia de desresponsabilização de um predador e a desvalorização do crime.