Siga-nos

Perfil

Expresso

“Imploro-vos: acabem com o Daesh”

  • 333

FOTO REUTERS

“O Estado Islâmico reduziu as mulheres yazidi a pedaços de carne, pronta para ser traficada”. É impossível ouvir ou ler esta frase e não ficar de imediato com um nó no estômago. Nadia Murad Basee Taha tem 21 anos e foi uma das inúmeras vítimas do auto-proclamado Estado Islâmico. Após três meses de tortura, conseguiu fugir. Na semana passada esteve no Conselho de Segurança das Nações Unidas onde teve a coragem de contar na primeira pessoa as atrocidades a que esteve sujeita depois de ter sido sequestrada, juntamente com centenas de outras mulheres e meninas daquela minoria religiosa.

Num encontro dedicado a debater o flagelo do tráfico humano, Nadia contou como foi levada à força para Mosul, onde foi entregue a um militante do Estado Islâmico. Lá, deparou-se com um realidade que julgava impensável: mulheres e crianças eram trocadas e compradas como objetos num mercado de escravas. Começou por ser posse de um soldado que a obrigava a vestir-se e maquilhar-se como ele gostava para depois a violar. Violações que a deveriam purificar, uma vez que os yazidis são considerados infiéis e adoradores do diabo.

Violações em grupo como resposta a tentativas de fuga

Na vida de Nadia, a humilhação, o medo e violência física passaram a ser a sua rotina diária, tal como acontecia com todas as mulheres e crianças que ali iam parar. “Um dia decidi fugir mas um dos guardas apanhou-me. Nessa noite, ele bateu-me. Depois disse-me para me despir e levou-me para um quarto onde estavam outros guardas. Um a um foram cometendo o crime até que eu desmaiei”. Num discurso que nos gela o sangue nas veias, além de revelar as atrocidades pelas quais passou, Nadia conta também como alguns dos seus irmãos foram mortos pelo grupo terrorista. E deixa um pedido urgente ao conselho de Segurança da ONU: “Imploro-vos: acabem totalmente com o Daesh. Passei por todo este sofrimento por causa deles. Vi o que eles fazem com rapazes e raparigas. Todos aqueles que cometem crimes de tráfico humano e genocídio devem ser levados à justiça para que mulheres e crianças possam voltar a viver em paz na Síria, Iraque, Somália e Nigéria, em todo o mundo. Todos esse crimes devem ter um fim hoje.”

Para recordar: em agosto de 2014 os militantes do Daesh raptaram mais de cinco mil yazidis da região de Sinjar, num ataque já oficialmente considerado como tentativa de genocídio. Muitos dos homens foram torturados e mortos, já as mulheres (cerca de 3 mil cativas) foram transformadas em escravas. Estima-se que cerca de duas mil já tenham conseguido escapar às garras dos terroristas, em grande parte com a ajuda de ação humanitária no terreno, mas para muitos yazidis – homens, mulheres, crianças - a morte foi o seu destino.

Ouvir este emotivo relato de Nadia Murad Basee Taha – que atualmente vive na Alemanha - é voltar a despertar para uma realidade que tantas vezes nos parece demasiado distante para que continue a ser notícia. Mas essa realidade atroz, angustiante, inimaginável, ainda é o dia-a-dia de muitas das vítimas que não conseguiram escapar. Este discurso pretende precisamente não deixar cair no esquecimento as milhares de mulheres e meninas que continuam a vivê-la, sem que nada – ou muito pouco – seja feita para pôr fim a tão cruéis abusos.

Aqui fica um excerto do discurso: