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Expresso

Usar uma mulher como centro de mesa é triste... e démodé

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Entro numa festa e a primeira coisa que vejo é uma mulher, de carne e osso, em cima de pequeno pedestal a folhear uma revista, tal qual boneca inexpressiva que se bamboleia num gesto mecânico. Duas horas depois continua na mesma posição a fazer exatamente o mesmo, a tal ponto que nos esquecemos que é uma pessoa que ali está. Dou mais uns passos e vejo outra, enfiada no centro de uma mesa, mais uma vez a folhear uma revista e com sorriso forçado. Supostamente estou em frente a um centro de mesa cuja saia serve para pousar os copos, não de uma mulher, pelo menos é o que quer fazer parecer. A maioria das pessoas que passa por aquelas mulheres basicamente nem as vê. E alguns dos poucos que param para as ver soltam graçolas grosseiras em sussurro.

Aconteceu-me esta semana ir para a este cenário e perceber que, mesmo as mentes que supostamente deveriam ser mais criativas, ainda continuam a bater na tecla da mulher objeto. Em pleno século XXI, numa festa onde se celebra a diversidade e as mentes criativas de Lisboa, a única coisa que me ocorreu ao olhar para isto foi: é mesmo preciso continuar a objetificar as mulheres para vender a ideia de um produto, neste caso de uma revista? A sério, não conseguimos fazer melhor que isto?

Chamem-me feminista – agora deu em ser uma palavra usada como ofensa, vá-se lá entender – mas acho ridículo que não se consiga ir mais longe para fazer tentar passar uma mensagem. A utilização da imagem da mulher sexy já está tão batida que, num evento que se quer criativo, já nem sequer faz sentido. É bacoca. Ir mais longe e usar a mulher como objeto é não só sinistro, como também desrespeitoso (se fosse um homem era igual). Mas o que me parece mais grave é que sejam poucos os que param para reparar nisso. Ver uma pessoa transformada num centro de mesa é aceite como algo normal. E que dá direito a uma chacotazinha entre copos, feita do alto do pedestal de quem está ali como convidado/a e que se sente num patamar mais elevado do que o das senhoras contratadas para serem objetos por uma noite. E que aceitam este trabalho porque muito provavelmente têm contas para pagar ao fim do mês. No mínimo, deprimente.

O universo dos pedantes que gozam com a senhora da fruta

Se rir destas mulheres já era mau, ainda mais agoniada fico quando volto a constatar que a mania de apequenarmos o que é nosso – e que faz parte da nossa identidade enquanto país – continua a ser prática pública. Aceite e aplaudida. Numa festa de uma revista que se dedica a celebrar semanalmente Lisboa, sujeitar deliberadamente pessoas com o rótulo de “humildes” , como vendedoras de fruta, talhantes e lixeiros , ao escárnio dos tais convidados que mais uma vez se sentem num patamar acima, é triste. Gozar com estas pessoas é gozar com os lisboetas na sua essência. E ter uma plateia a rir histericamente porque uma daquelas pessoas não sabe pronunciar a palavra “Shakespeare” é ofensivo. Uma ofensa que fica ainda mais pronunciada quando a pessoa que apresenta o evento solta bocas como “esta senhora deve ter mesmo lido estes livros” quando se fala de literatura. Enfim, a piada fácil é isso mesmo, fácil.

Este é apenas um exemplo de uma festa que meteu a pata na poça e que me deixa a pensar que este caminho que toda a gente apregoa sobre a evolução dos tempos ainda vai a ritmo lento por cá. Mas como esta, há muitas outras festas a toda a hora, para vender a imagem de produtos de todo o género. Com pessoas que olham para uma mulher a fazer de boneca e se riem dela. Com plateias que gozam sem pudor do facto de nem todos possuirmos – ou termos a possibilidade de acesso a – igual educação e cultura.

Talvez esteja a ficar demasiado velha para ter paciência para universos destes, do Portugal dos pequeninos. Mas que as marcas que até se vendem como sendo vanguardistas deviam começar a ter menos preguiça e mais consciência, lá isso é uma verdade. E, porque não, ajudarem a educar o seu público a ser menos pedante no que toca ao respeito ao próximo. Quem sabe se isso não se torna num comportamento super trendy no futuro.