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Expresso

Ninguém quer violar mulheres gordas

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“Não querem ser violadas? É muito fácil: engordem. Quem me dera ter descoberto isto há mais tempo”. Esta é apenas uma das frases da fabulosa apresentação feita por uma californiana durante um festival de poesia, e que tem dado que falar nas redes sociais. O poema escrito por Beck Cooper chama-se “Rape Prevention Potluck” (qualquer coisa como “Banquete para prevenir violações”), um título cheio de carga irónica, tal como as palavras que o compõem do início ao fim.

Beck Cooper é uma mulher obesa. E decidiu usar a sua arte para fazer um crítica social pública a um dos comentários jocosos com o qual já se deparou várias vezes ao longo da vida: “Tive conhecimento através dos homens que parecem ter respostas para tudo no mundo de que eu sou demasiado gorda para poder ser violada”, começa a poetisa californiana, como frase de arranque de uma declamação dura, poderosa, cheia de sarcasmo e aplaudida quase do início do fim.

“Mas alguém quer violar aquilo?”

Num tom que faz parar a respiração do público que a ouve, Beck Cooper distribui verdadeiras bofetadas de luva branca. “As gajas gordas não podem dizer que não a nada: não podem dizer não a um bolo de chocolate, não podem dizer não a serem violadas”, afirma a californiana em tom firme e olhar desafiante. O poema é dedicado a todos os que dizem coisas como “mas alguém quer violar aquilo?” quando veem uma mulher obesa. Um suposto gracejo que acredito que quase todos nós já ouvimos e ao qual raramente fazemos frente com a indignação que ele merece. Encaramo-lo simplesmente como uma piadinha grosseira mas aceitável – tal como encaramos tantas outras frases do género - , algo tão comum que nem nos faz parar para perceber quão hediondas e perigosas são tais palavras. Mas também tal crença, que ganha força com a sua banalização.

Beck Cooper decide apontar o dedo não só a essa inconsciência de quem ouve e nada faz, mas também ao pensamento simplesmente asqueroso – e altamente generalizado - de que uma mulher gorda deve sentir-se agradecida por qualquer tentativa de contacto físico que lhe seja feita. Mesmo que esse contacto seja feito por alguém pelo qual não se sente atraída. Pior: mesmo que esse contato seja uma tentativa de violação. “Dizem-me que nenhum se atreveria a deitar-se comigo e com a minha morbidez, por isso, se um homem quiser doar o seu corpo ao interior do meu, deveria sentir-me grata.”

Trivializar esta assunção, olhando para o lado ou até soltando uma gargalhada quando ouvimos tamanhas imbecilidades é participar na ofensa, no perpetuar do mito de que uma mulher obesa não é uma mulher como qualquer outra. E que não pode ser alvo de tamanho crime por causa do seu peso. A sério? Até quando falamos de um crime a percepção da imagem da mulher está presente? Tenham dó. Uma vítima é uma vítima. E uma mulher é simplesmente uma mulher.

À Beck Cooper, o meu aplauso.