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Expresso

Papá, protege-me porque nasci mulher

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“Dear Daddy” é nome da mais recente campanha em vídeo partilhada pela Care Norway, que tenta com ela alertar para um triste dado que é inegável: de acordo com a Organização Mundial de Saúde, uma em cada três mulheres será vítima de abuso físico ou sexual durante a sua vida. Pela voz de uma menina que usa o seu pai como metáfora para todos os pais e homens do mundo, aquela organização de defesa dos direitos humanos norueguesa tenta com isto fazer não só uma chamada de atenção para esta realidade, como um pedido de menor tolerância para comportamentos violentos e machistas.

Desde os supostas comentários sexistas inocentes que são partilhados por pais e filhos sobre raparigas, como se estas brincadeiras não pudessem vir a ter consequências futuras, à forma como as mulheres são insultadas e julgadas pelas roupas que vestem, sendo que qualquer mini-saia é suficiente para se ser “uma puta”, aos atos de violência física e psicológica dentro de uma relação amorosa, são muitos os temas abordados neste vídeo, que merece mesmo ser visto e partilhado. É um abanar de consciências para uma realidade que acontece diariamente por baixo do nosso nariz, na porta ao lado, ou mesmo dentro da nossa, maioritariamente feita por pessoas do círculo pessoal da vítima. E muitas vezes sem sequer termos noção disso.

Ao contrário do que muitos dos internautas que viram o vídeo e o comentaram no YouTube acham, esta não é uma história que ponha todos os homens no papel de vilões. É sim uma história cheia de metáforas e ironias, que condensa as inúmeras possibilidades de histórias reais que envolvem violência contra mulheres um pouco por todo o mundo. Claro que há muita violência também exercida sobre o sexo masculino - que se façam campanhas sobre isso em vez de perpetuar a ideia que “os homens não choram”, por exemplo - , mas esta é sobre a violência contra as mulheres. O que não a torna feminista, entenda-se. Torna-a apenas realista: as mulheres e as crianças continuam a ser as maiores vítimas de violência.

Meter o dedo na ferida em vez de a tapar com um penso rápido

Em vez de considerarmos este vídeo um ataque, consideremo-lo antes uma chamada de atenção para todos nós, homens e mulheres, que têm a educação dos futuros adultos em mãos. Educar uma criança para a igualdade de género e respeito pelo próximo, em vez de perpetuar comportamentos sexistas, violentos e abusivos, é parte do caminho. E dar o exemplo faz, sem dúvida, parte da mudança. Promover vídeos como este, que tocam na ferida em vez de a taparem com um penso rápido, também. Mesmo que não sejam entendidos à primeira.

Volto a dizê-lo: em caso de dúvida sobre a importância destas campanhas, os números não mentem. Na Noruega, por exemplo, no último ano foram registados cerca de 2500 casos de violência doméstica. Quase 80% das vítimas eram mulheres. Segundo dados recentes da Polícia Judiciária, em 2014 foram participados em Portugal 374 crimes sexuais. No total, 98% dos violadores eram homens e 92% das vítimas eram mulheres. Só no primeiro semestre de 2014, a UMAR contabilizou 31 mulheres mortas em situações de violência doméstica e as autoridades portuguesas tinham recebido cerca de 13 mil participações. Já no maior inquérito europeu sobre este tema - realizado a 42 mil mulheres - concluiu-se que, nos 12 meses anteriores, 13 milhões de mulheres na Europa tinham sido agredidas fisicamente e 3,7 milhões sexualmente, ambas as situações dentro de relações amorosas.