Siga-nos

Perfil

Expresso

10 coisas a relembrar sobre a vida das mulheres na Arábia Saudita

  • 333

Mulher depois de votar para as eleições municipais em Riade, Arábia Saudita

FOTO © STRINGER / REUTERS

O parco pacote de reformas anunciado pelo o rei Abdullah em 2011 – que incluía entre outras coisas o acesso das mulheres sauditas às urnas, nas eleições de 2015 – parece estar a ser cumprido após a sua morte. Pela primeira vez elas puderem votar, num país onde o sistema patriarcal é levado ao extremo, das mais variadas formas. Se o facto de as mulheres poderem ir a votos já era uma gigante vitória, a eleição de uma seria um género de cereja no topo do bolo. O que ninguém esperava era que no fim 17 nomes femininos figurassem entre os eleitos. Mesmo que os respetivos cargos municipais tenham fraquíssima relevância política, não importa: fez-se história. E se há alguém que saiu vencedor destas eleições foram as sauditas no seu todo. As que votaram, as que foram eleitas e todas aquelas que mesmo assim não conseguiram ir às urnas por todas as impensáveis discriminações a que estão sujeitas.

Dados dos boletins apontavam que entre os eleitores inscritos apenas 130 mil eram mulheres, enquanto que os homens ultrapassavam os 1,35 milhões. Desconhecimento? Talvez. Desinteresse político? Talvez. Medo? Não tenho dúvidas. Impedimentos de exercer o seu recente direito ao voto? Tenho a certeza.

10 exemplo de discriminação de género

Embora não seja o país com maior disparidade de igualdade de género do mundo (está no top 5), a Arábia Saudita continua a ser um país parado no tempo no que diz respeito não só à paridade, mas também aos direitos humanos no geral. No caso concreto das mulheres (este espaço se chama A Vida de Saltos Altos, foquemo-nos nelas), são muitas as situações e direitos que nós, mulheres do mundo ocidental, damos como dados adquiridos, e que naquele país desafiam a lei. Eis alguns exemplos que devemos relembrar de vez em quando:

1 - Nenhuma mulher pode andar sozinha na rua, nem muito menos confraternizar com alguém do sexo oposto sem a presença de um terceiro. Esse convívio (que pode ser algo como receber a entrega do merceeiro em casa) carece de autorização do seu guardião legal (marido, pai, irmão, etc.), algo que todas as mulheres têm. Ou seja, são uma posse de um elemento masculino do seu círculo familiar, que decide por si quanto a coisas tão simples quanto o acesso à educação, abrir uma conta bancária, casamento e divórcio ou até mesmo fazer uma cirurgia. Tudo isto não depende do livre arbítrio da mulher, é o homem que decide.

2 - Mais de 60% dos alunos universitários são mulheres e entre os finalistas, quase 90% são do sexo feminino. Contudo, as mulheres constituem pouco mais de 10% da força laboral do país.

3 - Como assim há não muito tempo dizia publicamente o ministro do Trabalho saudita, “O nosso ministério não vai promover a criação e posto de trabalho para mulheres porque o melhor sítio para uma mulher trabalhar é em casa”. Posto isto, não surpreende nem o número anterior, nem o facto de que as mulheres – salvo raras exceções – só poderem trabalhar em empresas que façam segregação de género nas suas instalações. Carreiras como engenharia, arquitetura e direito estavam até há poucos anos vedadas a mulheres.

4 - As mulheres não têm autorização para conduzir, salvo em algumas zonas rurais sob a desculpa masculina de que “a subsistência da família pode depender disso”. Em grandes cidades conduzir é proibido e houve já mulheres a serem presas e severamente castigadas com chicotadas por infringirem essa regra. Entre vários motivos está o facto de que, caso haja um acidente, podem ter de interagir com um homem, ou então terem de destapar a cara para ver melhor (hijab e véu são obrigatórios no país, uma vez que só os olhos e as mãos são consideradas partes menos impuras do corpo). Só em 2013 passaram a ter autorização para andar de bicicleta, e exclusivamente em zonas próprias para tal. Como é óbvio, vestidas a rigor e com companhia de um homem.

5 - Tal como para viajar, as mulheres só podem tirar o passaporte com autorização do seu guardião. Quando passam a fronteira, o guardião recebe um sms de notificação para que tenha o controlo de tal movimento, mesmo que tenha autorizado a viagem.

6 - As mulheres não são de todo incentivadas a usarem transportes públicos e, quando o fazem, têm de usar os meios existentes com separação de género. Várias companhias de autocarros e comboios não aceitam transportar mulheres.

7 - Só depois da passagem do milénio é que as mulheres passaram a ter cartão de identificação que prova a sua existência enquanto cidadãs. Nessa altura, poucas os tiveram e as que conseguiram precisaram da autorização do seu guardião. Em 2013 a criação do cartão de cidadão passou a ser mais generalizada, até mesmo para evitar situações em tribunal onde as mulheres tinham de provar serem quem eram (e a que família pertenciam) quando um homem decidia negar.

8 - A poligamia ainda é legal na Arábia Saudita, obviamente, só para os homens.

9 - No que toca a parentalidade, legalmente os filhos são posse do pai.

10 - Até 2013, crimes relacionados com violência doméstica não eram levados em conta, nem muito menos punidos. A lei mudou, mas claro está que passar da teoria à prática é outro caminho. Enquanto o sistema dos guardiões existir, tal como a percepção de supremacia masculina, legalmente serão raros os casos que chegam a tribunal. Por exemplo, no que diz respeito a violações, regra geral as vítimas são também condenadas em tribunal, principalmente por crimes como “terem estado sozinhas com um homem” ou “comportamento impróprio e pecaminoso”.

90% das sauditas gosta do sistema do guardião. Será?

Lembro-me de há uns anos ter sido revelado um estudo que deu imenso que falar, onde 80% das mulheres sauditas eram contra a alteração das leis de segregação de género. Outro levantamento, dessa vez com recolha de 8 mil opiniões, alegava que 90% das mulheres gostava de ter o sistema do guardião. Claro que aquilo que menos deu furor na altura foi o facto de serem estudos feitos pelo próprio Governo. Num país onde as mulheres são ostracizadas, acham mesmo que estas respostas foram dadas de forma livre e anónima? Quantas não levariam um valente par de estalos (no mínimo) do seu guardião por ousarem dizer que são contra o sistema?

Acredito nos valores da família que se vivem dentro de inúmeras casas sauditas, assim como acredito que haja realmente muitas sauditas que não aprovam as liberdades e excessos do mundo ocidental, que querem proteger as suas tradições e costumes e que acarinham a sua cultura. Mas que ninguém me venha dizer que a maioria gosta de estar na categoria de uma simples posse do mundo masculino. Muitas até agradecerão o sistema do guardião, porque os perigos inerentes do assédio são mais que muitos e o grau de violência daí resultante também. Violência e perigo que o homem se sente na legitimidade de infligir porque, lá está, considera a mulher um ser inferior e pouco puro.

As eleições de ontem foram um pequeno passo no longo caminho da igualdade de género na Arábia Saudita. Caminho esse que também nós percorremos na Europa há não tanto tempo quanto isso. O acesso à educação e a democracia têm-se revelado peças chave na evolução. Só espero que as mulheres portuguesas tenham noção disso quando chegar a altura de ir às urnas em janeiro. O nosso direito ao voto nem sempre foi um dado adquirido.