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Expresso

A vida de saltos altos

Elogiar o próximo não paga imposto

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Tem andado a circular na web uma experiência social feita por uma estudante de Chicago que se baseia no elogio e na beleza. Basicamente, a jovem decidiu retratar uma série de pessoas mais ou menos da sua idade, mas quando os punha em frente à câmara dizia-lhes que o propósito era fotografar coisas que ela achava serem bonitas. E reforçava: sim, eu acho-te bonito. As reações a este elogio foram filmadas e fotografadas e o resultado é mesmo muito interessante. A larga maioria dos miúdos demonstra sentir vergonha quando ouve a fotógrafa dizer-lhe que o/a acha bonito. Alguns tornam-se agressivos para gerir o embaraço, outros contornam-no com palhaçadas. Mas todos, sem excepção, ficam surpreendidos e desconfortáveis quando confrontados com um elogio. Elogio esse que deveria ser um dos mais básicos e comuns no nosso dia a dia. Mas que na realidade não é.

Podiamos achar que este desconforto acontece exclusivamente porque são adolescentes, mas será mesmo que se isto fosse feito com adultos as reações seriam diferentes? Por cá, tenho a certeza de que não. Lembro-me de um amigo ter por hábito fazer precisamente isto, tanto com amigos, como com familiares e até com a senhora da mercearia e do café do bairro onde morava. Distribuía elogios porque achava que isso faria as pessoas sentirem-se melhor. Conclusão: toda a gente lhe tinha estima, mas por outro lado não se escapava ao rótulo do "excêntrico". Como se dizer em público "esse corte de cabelo fica-lhe tão bem" fosse um devaneio. Vivemos numa sociedade que parece ter medo do elogio ao próximo. Onde um cumprimento tão simples quanto “estás tão bonita” quase que só é dito em tom de sussurro, como se temessemos pagar imposto por elogiar alguém. Pior: onde alguém que se considera bonito é tido como uma pessoa que “tem a mania”.

Auto-estima, precisa-se. Meritocracia também

Mas esta opção pelo enfoque no lado cinzento da vida alarga-se a muitos mais espetros da nossa convivência. Raramente damos um elogio a um colega que fez um bom trabalho com receio de sermos mal interpretados, tal como raramente um patrão percebe que o reconhecimento pelo trabalho bem feito faz mais milagres do que a mesquinha repressão do pequeno poder que continua a ser lei um pouco por todo o país. Temos vergonha de dizer somos bons profissionais naquilo que fazemos, que somos uma mais valia para as empresas que nos contratam e que ninguém nos está a fazer um favor em pagar o ordenado ao fim do mês.

Temos também vergonha de dizer que somos amados, como se fosse uma falta de decoro ter um coração feliz. E temos vergonha de dizer que amamos, porque a possibilidade da rejeição é tramada e ainda podemos ser apanhados na curva. Somos o eterno país do “vai-se andando”, porque dizer que a vida corre bem não fica bem. Mais vale ser da equipa do “uns dias melhor, outros pior” para não destoar muito. E se nos dissserem que estamos bonitos, o mais certo é respondermos algo como “oh, que disparate”. A auto-estima anda pelas ruas da amargura, tenhamos nós 18, 28 ou 40 anos. E a crise é o alibi perfeito para uma questão cultural que vem de longe. Quando a crise passar (esperemos) haverá outro.

Nem que seja como uma metáfora para tudo o resto, vale a pena espreitar este vídeo e as reações destes miúdos a um elogio. Neste caso falou-se de beleza, mas se se falasse de profissionalimo, veia criativa ou até mesmo jeito para fazer ovos mexidos, as reações acredito que não seriam muito diferentes. A auto-valorização é um bicho papão que dá jeito a muita gente que fique guardado na despensa. Assim como a meritocracia.